France PresseNo círculo do poderMonica Lewinski, de 24 anos, teria sido pressionada por Bill Clinton e por assessores do presidente, o que caracterizaria perjúrio e obstrução da justiçaUma nova e explosiva alegação envolvendo favores e pressões que o presidente Bill Clinton teria feito para acobertar um caso amoroso com uma jovem estagiária da Casa Branca, em 1995, foi furiosamente desmentida ontem pelo líder americano, mas permaneceu no ar como uma ameaça potencialmente fatal à sua já duvidosa credibilidade pessoal e à viabilidade de seu governo.
O novo desdobramento do festival de escândalos sexuais que acompanha Clinton desde sua campanha eleitoral, em 1992, ganhou a manchete do ‘‘Washington Post’’ ontem, apenas três dias depois do interrogatório sem precedentes a que o presidente foi obrigado a se submeter no processo em que é acusado por Paula Jones, uma ex-funcionária do governo de Arkansas, de ter usado sua posição de governador do estado, em 1991, para pedir-lhe sexo oral num quarto de hotel em Little Rock.

O caso envolve Monica Lewinsky, de 24 anos, que começou a trabalhar como voluntária na Casa Branca em 1995 e foi nomeada depois para um posto remunerado no setor de imprensa do departamento de Defesa, de onde já saiu para montar sua própria firma de relações públicas. De acordo com o ‘‘Post’’, Lewinsky contou os detalhes de sua relação com o presidente e das pressões que sofreu para mantê-la em segredo a uma colega do Pentágono, Linda Tripp, que, como ela, trabalhara na Casa Branca.
Ao longo de dezoito meses, Tripp gravou mais de dez conversas que teve com Lewinsky sobre o assunto. Numa delas, recente, Lewinsky disse que foi aconselhada por Clinton e por um de seus amigos e conselheiros pessoais mais próximos, o advogado e lobista Vernon Jordan, a negar sua relação com o presidente no depoimento que deu sob juramento no processo em que Paula Jones acusa o presidente de assédio sexual.
De acordo com fontes citadas pelo ‘‘Post’’, Lewinsky afirmou, nesse depoimento, que nunca teve relação sexual com Clinton, que não recebeu cantada dele e que não se beneficiou nem foi prejudicada no trabalho em função de avanços sexuais do presidente.
O fato novo que colocou o assunto na manchete foi a decisão de Kenneth Starr, o promotor especial do caso Whitewater, que há mais de três anos investiga os vários escândalos da administração Clinton, de pedir formalmente a ampliação de seu inquérito. Starr, que obteve de Tripp uma cópia das fitas de suas conversas com Lewinsky, recebeu a autorização para expandir a investigação na sexta-feira passada de um painel de três juízes federais que o designou para a função.
‘‘O presidente considera essa alegação um insulto’’, disse ontem o porta-voz da Casa Branca, Mike McCurry. ‘‘Ele nunca teve uma relação imprópria com essa mulher’’. McCurry acrescentou que Clinton ‘‘deixou claro que quer que todos digam a verdade em todas as questões’’ relacionadas com o processo de Paula Jones.
Robert S. Bennet, o advogado que representa o presidente no caso Paula Jones, reforçou o desmentido. ‘‘O presidente nega categoricamente ter tido uma relação com Lewinsky e ela confirmou a verdade disso’’, declarou ele ao chegar ontem pela manhã na Casa Branca. ‘‘Essa história parece ridícula e, francamente, cheira a coisa plantada’’.
De acordo com a Casa Branca, Tripp teria gravado as conversas com Lewinsky
com a assistência de Starr. Tripp teria procurado o promotor especial para relatar uma outra história de romance de Clinton com funcionárias da Casa Branca. Este caso, que teria ocorrido no início da administração, envolveu Kathleen Willey. Segundo Tripp, ela viu Willey sair um dia do Salão Oval, o gabinete presidencial, com a maquiagem borrada e as roupas fora do lugar. Willey teria dito a Tripp, na ocasião, de que acabara de ter um encontro íntimo com Clinton. Chamada a depor no processo de Paula Jones, ela resistiu inicialmente. Segundo uma fonte citada pelo ‘‘Post’’, no depoimento que acabou prestando, sob juramento, em meados do mês passado, Willey disse que foi a Clinton para pedir-lhe um emprego melhor na Casa Branca e foi agarrada e beijada por ele.
O esforço da Casa Branca para apresentar a versão dos fatos que Tripp gravou como parte de uma operação orquestrada por Kenneth Starr visa a desacreditar a acusação e faz sentido, politicamente. Depois de gastar milhões de dólares e quase quatro anos para desvendar o escândalo do Whitewater, sem muitos resultados, o republicano Starr tem hoje um sério problema de credibilidade e é vulnerável às acusação dos aliados de Clinton de que transformou sua tarefa numa vendeta política.
Ainda assim, o ‘‘affair’’ Lewinsky pode ser desastroso para Clinton, por duas razões. A primeira é que ele torna o presidente alvo de acusações de conspiração para forçar alguém a cometer perjúrio e obstrução da justiça. Ambas são ofensas graves e poderiam levar o Congresso a iniciar um processo de impedimento de Clinton, se se comprovarem verdadeiras. As fitas gravadas por Tripp não são garantia de que o caso poderá agravar-se e produzir esse desfecho. A declaração jurada que Lewinsky fez no processo de Paula Jones tem precedência legal sobre qualquer afirmação que ela possa ter feito nas conversas com Tripp. Se ela reafirmar essas declaração diante da equipe de investigadores de Starr ou, eventualmente, de um grande júri, o caso tenderá ao mesmo destino das demais alegações envolvendo a conduta sexual de Clinton.
A curto prazo, no entanto, o episódio produzirá consequências negativas para Clinton. Ele ocorre no momento em que o presidente americano prepara o discurso sobre o estado da União, que fará na próxima semana perante uma sessão conjunta do Congresso. Segundo assessores, ele saiu satisfeito do depoimento que deu no sábado no processo de Paula Jones. Pesquisas publicadas no fim de semana mostraram, também, que os americanos acreditam cada vez mais na versão de Clinton e cada vez menos na de sua acusadora. O Presidente quer agora passar à ofensiva.
Em várias entrevistas que concedeu na semana passada, Clinton deixou patente sua intenção de usar o ritual anual do discurso sobre o estado da União, que marca o reinício da atividade legislativa depois do recesso de fim de ano, para propor várias iniciativas da área social, consolidar sua alta taxa de aprovação popular, provar que continuará a ser um líder relevante até o final de seu mandato, em janeiro do ano 2000, e ir assegurando seu lugar na história.
Agora, em lugar de cuidar dessas prioridades, Clinton terá uma vez mais que responder a perguntas constrangedoras sobre sua vida sexual e a imprensa manterá o foco no novo episódio. Além do conteúdo explosivo do caso, a matéria publicada pelo ‘‘Post’’ ontem chegou a afetar psicologicamente os funcionários da Casa Branca e isso ajuda a alimentar as suspeitas e manter o assunto vivo.

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