Paulo Sotero
Agência Estado
De Washington
Um dia depois de seu capítulo mais dramático, a novela em torno da custódia do menino cubano Elián González mudou de cenário e ganhou novos personagens ontem. Empenhados em tirar os dividendos possíveis políticos do caso, ou conter possíveis danos para suas carreiras e partidos, políticos republicanos e democratas entraram em cena em Washington para denunciar como ‘‘excessiva’’ e até mesmo ‘‘ilegal’’ a ação policial ordenada pela ministra da Justiça, Janet Reno, na madrugada de sábado, para remover Elián da casa de seu tio-avô, Lázaro González, em Miami. O governador do Texas, George W. Bush, candidato republicano à Casa Branca, classificou a intervenção dos agentes federais a um ato de ‘‘terror’’. Seu rival democrata, Albert Gore procurou distanciar-se da ação da administração da qual é um dos principais membros.
Altos funcionários do governo defenderam a ação dos oito agentes armados do Serviço de Naturalização e Imigração (INS) que participaram da operação, afirmando que a família não deixou nenhuma outra alternativa ao governo. A mãe de Elián e nove outras pessoas morreram no naufrágio do barco em que tentavam chegar aos EUA, em novembro do ano passado. Elián e dois outros sobreviventes foram resgatados por pescadores, no Dia de Ação de Graças.
O vice-líder da maioria republicana na Câmara de Representantes, o anticastrista Tom DeLay, disse ontem que a ação policial será investigada pelo Congresso e prometeu convocar Reno a explicar sua decisão.
‘‘Pela primeira vez, uma agência governamental invadiu a casa de um cidadão sem ordem judicial’’, afirmou DeLay. ‘‘Tínhamos uma ordem de um juiz que disse que o governo estava agindo de maneira apropriada e tínhamos uma ordem do INS que dizia que a criança tinha que ser transferida (para seu pai)’’, respondeu o vice-secretário da Justiça, Eric Holder.
Marileysis González, a prima de segundo grau de Elián que se autonomeou mãe substituta do menino nos últimos cinco meses, e seu pai, Lázaro, continuaram a alimentar ontem o lado mais melodramático da novela. Frustrados nas duas tentativas que fizeram no sábado de visitar Elián, na base aérea de Andrews, perto de Washington, os González de Miami deram ontem uma entrevista para atacar Reno e o presidente Bill Clinton. Perguntada sobre a fotografia divulgada apenas algumas horas depois do episódio, na qual vê um Elián tranquilo e sorridente nos braços do pai, Marileysis disse que a foto não poderia ter sido tirada no sábado, porque o cabelo de Elián estava comprido demais, insinuando assim que o governo teria feito uma falsificação.
De acordo com o Gallup, 57% (contra 37%) dos americanos manifestaram-se a favor da reunião de Elián com seu pai e 59% (contra 27%) acham que ele deve voltar para Cuba se esta for a decisão de Juan Miguel. Mas 40% disseram que as autoridades usaram força excessiva para impor a lei; 36% classificaram os meios utilizados como apropriado para as circunstâncias e 23% não opinaram.
Quanto a Elián e a seu pai, o plano ontem era de transferi-los para um local não revelado perto de Washington, onde aguardarão as decisões judiciais pendentes, num processo que pode levar meses e chegar à Suprema Corte.Candidatos e políticos procuram tirar dividendos sobre a ação que retirou o menino da casa do tio-avô, no bairro de Little Havana, em Miami
France PresseFRUSTRAÇÃOMarileysis González e Lázaro González, prima e tio-avô de Elián, dão entrevista: protesto

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