Paris - Da Espanha ao Reino Unido, milhões de europeus enfrentam, a partir desta sexta-feira (19), uma segunda onda de calor em menos de um mês, associadas às mudanças climáticas, especialmente na França, onde as autoridades convocaram uma reunião de crise.

Os cientistas alertaram que as ondas de calor na Europa estão se tornando mais frequentes devido às mudanças climáticas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), elas causaram a morte de mais de 200 mil pessoas na Europa nos últimos quatro anos.

Na França, mais de 41 milhões de franceses irão neste sábado em áreas sob alerta laranja, o segundo mais alto do país, neste segundo episódio de onda de calor que atinge a Europa neste ano, após o ocorrido no final de maio.

A situação é especialmente difícil nos bairros de grandes conjuntos habitacionais. “Estamos sufocando”, resume Léria, uma dona de casa de 32 anos, moradora em desses conjuntos, em Nanterre, nos arredores de Paris.

O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, convocou para este sábado uma reunião da célula de crise para tratar da onda de calor, em uma tentativa de mitigar os efeitos do calorão já que no domingo será realizada a popular Festa da Música.

Nesse dia, alguns departamentos franceses poderão passar para “alerta vermelho por onda de calor”, com temperaturas em torno de 30°C durante a noite e 40°C durante o dia, anunciou o ministro do Interior, Laurent Nuñez.

CALORIAS, ÁLCOOL E MÚSICA

Esse evento festivo reúne todos os anos milhões de pessoas nas ruas da França para aproveitar shows ao ar livre e extrair bebidas alcoólicas. Algumas cidades cancelaram, mas o governo descartou um cancelamento generalizado.

No entanto, a ministra da Saúde, Stéphanie Rist, pediu prudência: "O álcool, combinado com o calor, provoca consequências muito importantes" para a saúde; "nos desidratamos duas ou três vezes mais" e "acabamos em emergências muito mais rapidamente".

Em Paris, a prefeitura espera cerca de dois milhões de pessoas nas ruas, como no ano passado, entre eles milhares de britânicos que, motivados pelas redes sociais, já se preparam para viajar à capital para reviver a “Festa”.

“Em cada esquina havia uma festa de bairro”, explicou Serpico Collins, 33 anos, morador do bairro londrino de Camden, que no domingo voltará a percorrer as ruas de Paris em busca de música ao vivo e apresentações de DJs em varandas.

O presidente Emmanuel Macron pediu para que se “cuide dos idosos, das pessoas mais vulneráveis”, porque “são dias difíceis”. As autoridades cancelaram vários eventos esportivos e adiaram os exames finais para a obtenção do diploma do ensino médio.

PICOS DE CALOR

Entre março e maio, a França viveu uma primavera mais quente desde o início dos registros, em 1900, assim como a Inglaterra e o País de Gales, segundo a agência meteorológica Met Office.

No Reino Unido, o pico de calor é esperado para segunda ou terça-feira, com temperaturas que podem ultrapassar os 34°C, e as autoridades emitiram alerta laranja para Londres e grande parte do sul da Inglaterra.

O recorde de temperatura mais alta já registrado em junho — 35,6°C, ocorrido em 1957 e 1976 — poderá ser superado no início da próxima semana, segundo o serviço meteorológico britânico.

Na Espanha, as autoridades emitiram um alerta para uma onda de calor extremo que deverá afetar a maior parte do país, assim como as Ilhas Baleares, a partir de domingo. As temperaturas deverão ficar em torno dos 40°C em algumas regiões.

Da Hungria à Eslováquia, passando pela Áustria, também são esperadas temperaturas elevadas. Na Suíça, onde elas poderão atingir 37°C, os alunos de 4 e 5 anos serão dispensados ​​de frequentar a escola na segunda e na terça-feira em Genebra.

DESLOCADOS CLIMÁTICOS

Em entrevista à AFP, a diretora-geral da Organização Internacional para as Migrações (OIM), Amy Pope, disse que os cortes nos orçamentos de ajuda ao desenvolvimento por parte dos países ricos podem aumentar as migrações forçadas. “Os cortes na ajuda ao desenvolvimento não fazem mais do que aumentar consideravelmente o risco de que as pessoas se vejam obrigadas a partir em busca de segurança e estabilidade”, disse.

Pope lembra que a mudança climática tem um impacto “enorme” nas populações. Ela lembrou, entre outros, dos pequenos Estados insulares do Pacífico, como Tuvalu, ameaçados pelo aumento do nível do mar, além das Filipinas, onde aproximadamente 10 milhões de pessoas foram deslocadas pelo aumento da intensidade dos tufões, segundo suas estimativas. Também foram destacadas várias regiões da África afetadas por secas prolongadas.

Pope instou os países mais ricos, principais responsáveis ​​pela mudança climática, a assumir sua responsabilidade oferecendo opções às pessoas obrigadas a se deslocar, antes que se encontrem em situações de crise.

Segundo o Banco Mundial, mais de 200 milhões de pessoas podem ser obrigadas a migrar dentro de seus próprios países até 2050 devido à mudança climática, de acordo com um relatório de 2021.

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