Nova encíclica propõe união entre fé e razão
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quinta-feira, 15 de outubro de 1998
Assimina Vlahou, especial para a AE Agência Estado 
A última encíclica deste milênio e 13ª do papa João Paulo II, Fides et Ratio (Fé e Razão), alerta para a necessidade e urgência de recompor a colaboração entre teologia e filosofia. O documento, divulgado ontem no Vaticano pelo cardeal Joseph Ratzinger e pelo teólogo da casa pontifícia Georges Cottier, é uma posição firme da Igreja Católica diante do perigo de um vazio de ideais da sociedade moderna.
O texto, cujos trabalhos duraram 12 anos, propõe novamente o tema da relação entre fé e razão 120 anos após a encíclica do papa Leão XIII, Pai Eterno, que tratava da mesma questão. Seu conteúdo é dirigido aos bispos, mas principalmente filósofos, teólogos e homens de cultura que deverão encarregar-se de fazê-la chegar às pessoas comuns, para quem o texto é de difícil compreensão.
É, antes de mais nada, a exaltação da razão humana e de suas capacidades de indagar e de ser ponto de encontro e diálogo entre crentes e ateus que buscam as mesmas respostas fundamentais da vida: de onde viemos, quem somos e o que acontece após a morte. Afirma que fé e razão não são antagonistas e demonstra que não é possível separá-las, caso contrário há o risco de se eliminarem mutuamente.
O papa, em sua encíclica, escreve que as questões fundamentais sobre o significado da vida são colocadas ao longo da história pelos homens de culturas e raças diferentes e admite que cada uma delas tem dado respostas diferentes, todas com uma semente da verdade. Meu pensamento vai para as terras do oriente, escreve o papa, ricas em tradições religiosas e filosóficas muito antigas.
A Igreja Católica vê a filosofia como o caminho para conhecer verdades fundamentais sobre a existência do homem e indispensável para aprofundar a inteligência da fé. O filósofo, na opinião de João Paulo II, deve agir segundo suas regras e princípios mas a verdade é uma só. A revelação cristã é o verdadeiro ponto de encontro e de confronto entre o pensar filosófico e o teológico, a estrela de orientação para o homem.
Para o cardeal Ratzinger, teólogo mais próximo ao papa e presidente da congregação para a doutrina da fé, o ponto central deste documento é a questão da verdade. E mostra-se em perfeita sintonia com a posição do papa: A verdade vale para todos, portanto o cristianismo vale para todos porque é verdadeiro, afirma. Esta posição, na opinião do cardeal Ratzinger, não é um obstáculo para a relação entre filósofos e pensadores não-crentes. Alguém já disse que um cristão não pode ser filósofo porque pensa que já encontrou tudo, portanto é falho, visto que sua profissão é estar aberto à pesquisa. Mas procurar já sabendo que não se pode chegar a lugar nenhum torna-se um jogo vazio, argumenta Ratzinger.


