Está completando um mês que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) lançou sua guerra aérea contra a Iugoslávia sob o pretexto de ‘‘evitar uma catástrofe humanitária’’. Pode-se dizer qualquer coisa sobre essa guerra aérea, mas claramente devemos admitir que ela fracassou no seu intento e objetivo.
Enquanto a Otan atacava pelo ar, a Iugoslávia atacava maciçamente por terra. E longe de evitar o desastre humanitário, a guerra patrocinada pela Otan acabou por esconder uma tragédia de dimensões inenarráveis.
Isso devia ter sido previsto. Mas nas principais capitais européias existia a crença de que o presidente Slobodan Milosevic jogaria a toalha logo depois dos primeiros ataques, e terminaria, sem outros problemas, por concordar com o acordo proposto em Rambouillet. A operação da Otan, supostamente, deveria ser um outro exercício de diplomacia apoiado pelo ‘‘high-tech’’ dos mísseis de cruzeiro e das reportagens da CNN.
Mas o fracasso estava literalmente programado dentro dessa estratégia. A resposta militar da Otan fora dirigida a minimizar os riscos para seus próprios pilotos e soldados, mas ao fazê-lo, maximizou os riscos para os albaneses de Kosovo, justo os que supostamente deveriam ser defendidos pela Otan.
Enquanto os aviões da Otan executavam ataques noturnos trafegando a grandes altitudes, inocentes civis ficaram indefesos em terra contra o terror diuturno dos grupos paramilitares sérvios, que escalavam o conflito entre o exército iugoslavo e as forças albanesas de Kosovo.
‘‘Antes do início desta guerra, eu adverti sobre a possibilidade de que até um milhão de pessoas seriam forçadas a fugir de seus lares nos meses seguintes. A horrível lógica da guerra emprestou uma dimensão chocante nos Bálcãs.’’
Havendo perdido a primeira rodada da guerra e fracassado no seu objetivo inicial declarado, a Otan deve agora reavaliar sua estratégia com a maior urgência. Crescentemente, as declarações da Otan sobre a guerra e seus objetivos mudam para assegurar agora o regresso de todos aqueles que se viram forçados a fugir.
O principal problema, contudo, será alocar essas centenas de milhares de almas desesperadas ao redor do mundo. Eles não querem ir para países sobre os quais nada sabem - querem regressar a seus lares, num país que é o seu. Mas essa meta seguramente não será alcançada só pela ação de uma guerra aérea. Nem se o exército iugoslavo fosse levado à total desorganização, pelas bombas, Kosovo estaria seguro. É óbvio: os bandos de soldados vagabundos da Sérvia representariam uma ameaça constante para os albaneses de Kosovo. Seriam um perigo constante e muito mais importante do que as forças armadas organizadas da própria Iugoslávia.
A Otan não pode utilizar uma política de destruição sistemática da infra-estrutura do resto da Sérvia para compensar seu fracasso frente à situação em Kosovo. A destruição Sérvia, a curto prazo, tornaria impossível a reconstrução a longo prazo de uma Sérvia democrática e próspera. É fácil destruir-se uma ponte sobre o Danúbio em alguns segundos, mas vai se levar anos de trabalho e esforços financeiros para recuperá-la.
Assim, a Otan deve agora preparar-se para uma invasão imediata de Kosovo. Uma ofensiva por terra certamente seria difícil, mesmo que a resistência inicial organizada seja limitada. Nenhuma campanha aérea pode derrotar um exército de mais de cem mil homens - ainda que o desmoralize profundamente.
Mas essa campanha por terra só será o início de um profundo envolvimento na região. A província de Kosovo terá que ser administrada como um protetorado internacional, preferivelmente sob a autoridade final do Conselho de Segurança das Nações Unidas, até que seja possível um acordo mais extenso para a Iugoslávia e para aquela conflagrada região.
Já não existe uma saída para a Otan nos Bálcãs. Inevitavelmente a região se converteu na frente central para a sobrevivência da Otan na Europa. Deve-se, imediatamente, pensar em um compromisso de longo prazo para preservar forças importantes naquela região. Havendo perdido a primeira fase da guerra, as nações da Otan devem também começar a fazer frente às questões políticas de toda a região. Kosovo não é uma ilha de guerra em uma região de paz. Crescentemente, os sinais de tormenta na região Sul da Eslovênia e ao norte da Grécia nos preocupa constantemente. Isso para não se falar na asneira que seria a mais nova idéia de provocar a Rússia com um embargo de combustíveis para a Iugoslávia.
A coalizão política entre a Rússia, por um lado, e a União Européia e os Estados Unidos, por outro, deve ser reconstruída para que haja chance de se evitar maiores e mais devastadores conflitos na região. As chamadas ‘‘guerras civis’’ dentro do Grupo de Contato só estimulam as guerras civis nos Balcãs.
Não se pode permitir à Otan perder esta guerra com Milosevic em nome do futuro de Kosovo. Mas por si só existem sinais de que as presentes operações possam evitar o desenvolvimento desse cenário. A fuga daqueles que estão sendo massacrados ou ‘‘purificados’’, torna um imperativo moral da Otan invadir agora por terra o território de Kosovo.
Carl Bildit, ex-primeiro ministro da Suécia, foi representante da União Européia para implementação dos acordos de paz em Dayton

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