Nações em desenvolvimento registram explosão do cristianismo
É domingo em Agbor, um afastado povoado no sudoeste da Nigéria, onde as galinhas ciscam e bicam em ruas de terra, marcadas pelas rodas dos veículos e onde há mais bicicletas do que carros. Durante toda a manhã, mulheres altas, vestidas com roupas de colorido vivo, crianças de olhos grandes segurando as mãos de seus pais, homens trajando camisas brancas e calças pretas de domingo, caminham em bandos para as igrejas.
Há mais de 20 templos no espaço de um quilômetro quadrado. Alguns são evidentemente católicos, anglicanos e protestantes evangélicos fruto da ação de missionários ocidentais. Mas, em sua maioria, de origem puramente africana, como a Igreja Celestial de Cristo, a Igreja do Milagre Apostólico e a Capela dos Vencedores. E o mesmo acontece em todo o subcontinente africano, onde o cristianismo é uma experiência de quase um terço da população.
Em deterioradas estradas de asfalto, os pára-choques traseiros de caminhões e ônibus proclamam slogans cristãos: Em Nome Dele, Fica Comigo, Senhor e Deus é Grande. Dentro das ruas comerciais urbanas, a música popular traz uma mensagem cristã otimista em idioma ibo, twi ou suaíle.
Até mesmo os letreiros em frente às lojas dão um testemunho público: Salão de Cabeleireiro Seja Feita a Vossa Vontade, Lavadora de Carros O Senhor É Minha Luz e Oficina Mecânica Confia em Deus, Especialista em Mercedes- Benz.
Este é o coração da África contemporânea. E, ao sul do Saara pelo menos, este coração é orgulhosamente cristão. O papa João Paulo II visitou a África dez vezes mais do que qualquer outro continente fora a Europa e por um bom motivo. Aqui, entre ashantis, bagandas e milhares de outras tribos que povoam o segundo maior continente do mundo, o cristianismo está se espalhando mais rapidamente do que em qualquer outra época ou lugar nos últimos 2 mil anos.
Entre os mais notáveis cristãos africanos está o cardeal Francis Arinze, um ibo da Nigéria, funcionário do Vaticano, considerado um dos principais candidatos a tornar-se o primeiro papa negro da história.
Em 1900 o início do que os protestantes norte-americanos batizaram como O Século Cristão , 80% dos cristãos eram europeus ou norte-americanos. Hoje, 60% são cidadãos do Mundo dos Dois Terços da Humanidade, composto por África, Ásia e América Latina. O centro do cristianismo mudou para o sul, diz Andrew Walls, da Universidade de Edimburgo (Escócia), especialista em história das missões cristãs. Os acontecimentos que estão moldando o cristianismo do século 21 estão ocorrendo na África e na Ásia.
A Europa é agora uma sociedade pós-cristã, onde a religião é essencialmete uma etiqueta de identidade. Na Escócia, menos de 10% dos cristãos vão regularmente à igreja, mas nas Filipinas, esse número é de quase 70%. Somente na Nigéria, os anglicanos são sete vezes mais numerosos do que os episcopalianos em todo o território dos Estados Unidos. Na República da Coréia há agora quase quatro vezes mais presbiterianos do que nos Estados Unidos.
A maré crescente dos cristãos não ocidentais não apenas está alterando o mapa do cristianismo mundial, mas revertendo também o fluxo de influência dentro do mundo católico e protestante. Há um mês, os bispos que presidem a Comunhão Anglicana Mundial reuniram-se na Carolina do Norte, em meio a uma forte controvérsia entre as igrejas liberais do Ocidente e a erupção de igrejas mais conservadoras na África e na Ásia.
No dia 21 de fevereiro, o papa ampliou o Colégio dos Cardeais para um recorde de 184 membros: dos 135 aptos a eleger o próximo papa, 41% são de nações não ocidentais. E, à medida que o cristianismo se torna uma religião verdadeiramente global, os teólogos da Índia e de outras partes da Ásia estão desenvolvendo novas e frequentemente controvertidas interpretações da fé, baseadas em seus contatos com tradições hindus e budistas.
O surgimento do cristianismo não ocidental tem muitas causas convergentes. Na América Latina, a fé que chegou com os conquistadores no século 16 está agora se expandindo, em parte porque a população está explodindo. Na Índia, o crescimento é principalmente entre os intocáveis, pertencentes às castas mais desprezadas, que encontram no cristianismo a esperança e a dignidade que lhes é negada pelo rígido sistema de castas. Na China, o cristianismo responde a problemas de sentido e significado da vida, da história, do ser humano, que o marxismo não consegue explicar.
Mas, em toda a parte onde se espalha, o cristianismo é também encarado como a religião do Ocidente bem-sucedido uma forma espiritual de vida compatível com a educação superior, a tecnologia e a globalização. Os missionários norte-americanos jamais foram tão ativos no mundo em desenvolvimento como agora, fornecendo saúde e educação para os pobres, atingindo com a televisão os lares mais humildes com mensagens de milagre e salvação.
Como resultado, pela primeira vez na história, o cristianismo tornou-se uma religião particularmente dos pobres, dos marginalizados, dos destituídos de poder e, em algumas partes da Ásia e do Oriente Médio, dos oprimidos. Seu rosto também mudou.
Os cristãos do Ocidente já estão experimentando os efeitos desta maçiça mudança demográfica. Países que outrora eram considerados terras cristãs transformaram-se em territórios de missão do novo milênio. Evangelizadores procedentes da América Latina e da África fazem hoje cruzadas em cidades como Londres e Berlim. Os efeitos sobre o catolicismo são particularmente notáveis.
Um entre cada seis padres que trabalham em paróquias católicas norte-americanas é agora importado do exterior e, entre os seminaristas nascidos nos Estados Unidos, há um número desproporcional de descendentes de asiáticos.
Em Roma, os seminaristas de antigos países de missão são agora tão numerosos quanto os da Europa e da América do Norte. Os Estados Unidos costumavam ser a fonte primária de novos recrutas para os jesuítas. Hoje, a Índia é o maior fornecedor dos seus noviços.
Mas, para milhões de cristãos na África e na Ásia, palavras como protestante e católico inspiram pouco ou nenhum sentido de identificação. Segundo David Barrett, co-autor da World Christian Encyclopedia, existem agora 33.600 denominações cristãs diferentes. E as que crescem com maior rapidez são as independentes, que não têm ligação com o cristianismo histórico, disse ele.





