Qual a relação entre um depósito de lixo em Manila, um oleoduto na Nigéria e um hospital em Johannesburgo? Nenhuma, salvo esta: nos três casos, a miséria mata, massacra e assassina.
Na Nigéria, há petróleo e, portanto, oleodutos. Canos cheios de petróleo atravessam o país, e o petróleo vale ouro. Então, os que não têm dinheiro tiveram uma boa idéia: colocaram sifões na tubulação, buscando, se não fazer fortuna, pelo menos obter uma pequena renda.
Mas essas pessoas foram muito inábeis: a tubulação explodiu. Duzentos mortos, estima-se. Mortos de petróleo.
Em Manila, capital das Filipinas, há 550 favelas. Uma dessas floresceu, se é que podemos dizer assim, em um dos depósitos de lixo dessa cidade de 17 milhões de habitantes. Ou melhor, 20 milhões de habitantes, mas que diferença faz? Três milhões a mais, três milhões a menos... O que é um ser humano nesses subúrbios da morte?
Nesse depósito de lixo formigam, como ratos ou galinhas em um monte de sujeira, 200 mil homens, mulheres e crianças. Mas atenção: não se pode falar muito mal desses depósitos de lixo, não só constituem a casa dos ‘‘malditos’’, como também são seu alimento, uma vez que é revolvendo-os que eles chegam a ganhar os poucos centavos que os mantêm acima da morte.
As montanhas de sujeira afundaram, foram afundadas, engolindo centenas de ‘‘arrombadores’’, entre os quais, pelo menos, 90 morreram asfixiados pelos dejetos humanos da cidade de Manila.
Como se poderia esperar uma infelicidade mais ‘‘simbólica’’ do que esse afogamento, esse naufrágio dos pobres nos excrementos dos ricos burgueses da capital? Mas, decididamente, os filipinos cultivam seu simbolismo. Na verdade, tinham dado a esse bairro do lixo o interessante nome de ‘‘Lupang Pangako’’, que quer dizer Terra Prometida.
A própria atmosfera chega em linha direta das visões de Dante em A Divina Comédia: uma terra lunar, negra, estéril, um cheiro de carniça e de cocô, seres que chafurdam na lama em busca de alguma coisa. Em busca de quê? Uma velha caçarola, um saco de arroz estragado, ou a cabeça de uma criança morta, ou mesmo o corpo esmagado de uma mulher.
E como em todas as grandes catástrofes metafísicas, os quatro elementos (água, ar, terra e fogo) se juntaram para levar a infelicidade à sua perfeição. A ‘‘água’’ dos tufões amoleceu a grande quantidade de ‘‘terra’’ podre, após o que um gigantesco curto-circuito pôs ‘‘fogo’’ e esse fogo atiçado pelo ‘‘ar’’ inflamado de depois da tempestade.
Há uma outra tragédia, lenta, obstinada, também marcada por signos do ‘‘diabo’’: a agonia fatídica de todo um continente, o continente negro, sob os golpes da Aids. O mundo assiste, nesse momento, ao desaparecimento de um dos cinco continentes da terra, a África. A Aids atinge 500 mil pessoas na Europa, assim como nos Estados Unidos e na Rússia. Na África, 25 milhões de pessoas foram contaminadas. Em Botuswana, um rapaz de 15 anos tem 90% de chance de morrer de Aids.
Há vastas regiões em que as escolas tiveram de fechar porque os professores morreram de Aids. As fábricas se esvaziam de operários em benefício dos cemitérios. A África morre sob o olhar compadecido do mundo.
O mais belo livro do escritor católico francês do século 19 (de extrema direita, aliás), Leon Bloy, carrega esse título esplêndido, horrível: ‘‘O sangue do pobre’’, e esse sangue jamais parou de escorrer.
Hoje, esse sangue entorna, envenena, aprisiona o planeta. Nós chafurdamos no sangue dos pobres.
Um horror como esse desencoraja qualquer comentário. Tem-se o direito de lembrar que se teria necessidade, segundo a ONU, de US$ 3 bilhões para salvar a África de sua catástrofe, de sua morte por Aids?
Três bilhões de dólares? É uma grande quantia. A sra. Helen Walton, que dirige as lojas Wal Mart, tem uma fortuna de US$ 46 bilhões.

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