Musical high tech leva Palma de Ouro
PUBLICAÇÃO
domingo, 21 de maio de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Cannes Especial para a Folha 
O musical melô-high tech Dancer in the Dark, do diretor dinamarquês Lars von Trier, foi o ganhador da Palma de Ouro do 53º Festival Internacional do Filme de Cannes. A pop star islandesa Bjork, que trabalha em cinema pela primeira vez, ganhou o prêmio de melhor atriz atuando no mesmo filme. Ela faz o papel de uma imigrante tcheca que vê o sonho americano cada vez mais difícil e trágico.
O prêmio a von Trier, que já era esperado pela grande maioria dos críticos presentes em Cannes, foi entregue por Catherine Deneuve que também está no musical na cerimônia de encerramento ontem à noite no Palais des Festivals e transmitida pela televisão francesa para toda a Europa.
O filme vencedor, que não se classifica como exemplar do Dogma-95, filtra o lado dark do diretor de Ondas do Destino e Os Idiotas pela ótica de dois dos gêneros mais populares do cinema hollywoodiano, o musical e o melodrama. A propósito, o cinema americano sai de Cannes apenas com um discreto reconhecimento para melhor roteiro, endereçado a Neil LaBute por Nurse Betty. Havia melhores.
De modo geral, a premiação do júri presidido pelo cineasta francês Luc Besson não trouxe grandes surpresas. O Gran Prix-Cannes 2000 foi para o chinês Guizi Lai Le, realizado por Jiang Wen. O filme, um dos vários selecionados para a mostra competitiva com quase três horas de duração, desmonta qualquer possibilidade de lógica de qualquer guerra. O Prêmio Especial do Júri foi o único dividido, contrariando recomendação que se julgava expressa da organização. Ex-aequo, o iraniano Takhté Siah (O Quadro Negro), de Samira Makhmalbaf, dividiu a premiação com o quase bizarro Chansons de Deuxiéme Étage, do sueco Roy Anderson, este o único mais desconcertante. Samira, de 20 anos e filha do diretor Moshen Makhmalbaf, passa à história do festival como o mais jovem realizador a levar um dos principais prêmios de Cannes.
Pouco lembrado foi outro melodrama, o belíssimo In The Mood for Love, de Won Kar wai, que ficou com o prêmio para melhor ator dado a Tony Leung. Estranhamente, também atribuiu ao filme o Prêmio da Técnica. Antes dos títulos de abertura, Kar wai colocou um letreiro, avisando que a produção era um work in progress, isto é, uma obra ainda não concluída no que se refere ao som, ouvido durante a projeção em mono sem a mixagem em dolby estéreo. Acertadamente, a melhor direção para o júri foi a de Edward Yang por Yi Yi, não por acaso outro melodrama num festival onde o gênero deu diversas cartas. Premiados três asiáticos, os jurados preferiram ignorar os japoneses Eureka e Gohatto. Shinji Aoyama e Nagisa Oshima saíram de mãos completamente vazias.
O prêmio Caméra dOr, destinado à primeira obra de um cineasta exibida em qualquer seção do festival, ficou para o iraniano Djomeh, de Hassan Yekpatanah. E ainda não foi desta vez que o Brasil fez as pazes com qualquer prêmio em Cannes. Além do fiasco de Ruy Guerra & Estorvo, nem Quiá Rodrigues na Cinefondation com De Janela Pro Cinema, e nem Ana Luiz Azevedo com o curta 3 Minutos tiveram melhor sorte. A destacar a presença bem recebida de Eu Tu Eles, de Andrucha Waddington, na paralela Um Certo Olhar.


