O musical melô-high tech ‘‘Dancer in the Dark’’, do diretor dinamarquês Lars von Trier, foi o ganhador da Palma de Ouro do 53º Festival Internacional do Filme de Cannes. A pop star islandesa Bjork, que trabalha em cinema pela primeira vez, ganhou o prêmio de melhor atriz atuando no mesmo filme. Ela faz o papel de uma imigrante tcheca que vê o sonho americano cada vez mais difícil e trágico.
O prêmio a von Trier, que já era esperado pela grande maioria dos críticos presentes em Cannes, foi entregue por Catherine Deneuve – que também está no musical – na cerimônia de encerramento ontem à noite no Palais des Festivals e transmitida pela televisão francesa para toda a Europa.
O filme vencedor, que não se classifica como exemplar do Dogma-95, filtra o lado dark do diretor de ‘‘Ondas do Destino’’ e ‘‘Os Idiotas’’ pela ótica de dois dos gêneros mais populares do cinema hollywoodiano, o musical e o melodrama. A propósito, o cinema americano sai de Cannes apenas com um discreto reconhecimento para melhor roteiro, endereçado a Neil LaBute por ‘‘Nurse Betty’’. Havia melhores.
De modo geral, a premiação do júri presidido pelo cineasta francês Luc Besson não trouxe grandes surpresas. O Gran Prix-Cannes 2000 foi para o chinês ‘‘Guizi Lai Le’’, realizado por Jiang Wen. O filme, um dos vários selecionados para a mostra competitiva com quase três horas de duração, desmonta qualquer possibilidade de lógica de qualquer guerra. O Prêmio Especial do Júri foi o único dividido, contrariando recomendação que se julgava expressa da organização. ‘‘Ex-aequo’’, o iraniano ‘‘Takhté Siah’’ (O Quadro Negro), de Samira Makhmalbaf, dividiu a premiação com o quase bizarro ‘‘Chansons de Deuxiéme Étage’’, do sueco Roy Anderson, este o único mais desconcertante. Samira, de 20 anos e filha do diretor Moshen Makhmalbaf, passa à história do festival como o mais jovem realizador a levar um dos principais prêmios de Cannes.
Pouco lembrado foi outro melodrama, o belíssimo ‘‘In The Mood for Love’’, de Won Kar wai, que ficou com o prêmio para melhor ator dado a Tony Leung. Estranhamente, também atribuiu ao filme o Prêmio da Técnica. Antes dos títulos de abertura, Kar wai colocou um letreiro, avisando que a produção era um work in progress, isto é, uma obra ainda não concluída no que se refere ao som, ouvido durante a projeção em mono sem a mixagem em dolby estéreo. Acertadamente, a melhor direção para o júri foi a de Edward Yang por ‘‘Yi Yi’’, não por acaso outro melodrama num festival onde o gênero deu diversas cartas. Premiados três asiáticos, os jurados preferiram ignorar os japoneses ‘‘Eureka’’ e ‘‘Gohatto’’. Shinji Aoyama e Nagisa Oshima saíram de mãos completamente vazias.
O prêmio ‘‘Caméra d’Or’’, destinado à primeira obra de um cineasta exibida em qualquer seção do festival, ficou para o iraniano ‘‘Djomeh’’, de Hassan Yekpatanah. E ainda não foi desta vez que o Brasil fez as pazes com qualquer prêmio em Cannes. Além do fiasco de Ruy Guerra & ‘‘Estorvo’’, nem Quiá Rodrigues na Cinefondation com ‘‘De Janela Pro Cinema’’, e nem Ana Luiz Azevedo com o curta ‘‘3 Minutos’’ tiveram melhor sorte. A destacar a presença bem recebida de ‘‘Eu Tu Eles’’, de Andrucha Waddington, na paralela ‘‘Um Certo Olhar’’.

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