São Paulo - O presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, disse ontem que o mundo deve "respeitar" o resultado da eleição parlamentar de domingo, que voltou a dar a seu partido, o AK (Justiça e Desenvolvimento), maioria absoluta no Legislativo. "Um partido com cerca de 50% dos votos na Turquia alcançou o poder. Isso deveria ser respeitado pelo mundo todo, mas não tenho visto essa demonstração de maturidade", declarou o presidente, em uma crítica à cobertura midiática do pleito, depois de rezar numa mesquita em Istambul. O líder turco também afirmou que a "vontade nacional" se manifestou em favor da estabilidade e pediu a união do país. A gestão de Erdogan, premiê de 2003 a 2014 e presidente desde o ano passado, é alvo de constantes acusações de corrupção e autoritarismo - no episódio mais recente, dois canais de TV de oposição ligados ao clérigo Fethullah Gülen foram tirados do ar pelo governo turco na semana que antecedeu o pleito. Depois de ter perdido a maioria nas eleições de junho, o AK, partido conservador de raiz islâmica, obteve 317 das 550 cadeiras do Parlamento turco na votação deste domingo. Apesar de a sigla ter recuperado a maioria, faltaram 13 cadeiras para que Erdogan possa convocar um referendo sobre mudanças constitucionais para transformar sua Presidência de cerimonial (chefia de Estado) em executiva, dando-lhe mais poder. A chefia do governo turco é oficialmente exercida pelo primeiro-ministro - hoje, Ahmet Davutoglu. "A ideia de que o resultado da eleição de junho foi um 'não' à Presidência executiva desmoronou", disse Mustafa Sentop, um dos líderes do AK, à agência de notícias Reuters. "Os números [parlamentares] não são suficientes por enquanto, mas acredito que o resultado mostra o interesse em que o sistema presidencialista seja adotado", acrescentou.

PREOCUPAÇÃO DOS EUA
A eleição ocorreu em um momento crítico para a Turquia no cenário global, com os EUA dependentes das bases aéreas turcas na luta contra o Estado Islâmico na vizinha Síria e a União Europeia insistindo na ajuda da Turquia para conter a crise migratória. Estima-se que haja hoje mais de 2 milhões de refugiados sírios em território turco, mas milhares de outros seguiram da Turquia em direção à Europa. Também ontem, o porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, disse que os EUA estavam "profundamente preocupados" com os relatos de pressões, por parte do governo turco, contra jornalistas e meios de comunicação durante a campanha eleitoral. A Casa Branca exortou as autoridades turcas a defender os valores de sua Constituição.

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