Mulheres na linha de frente por direitos
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de junho de 2000
Ana María Echeverría France Presse De Nova York 
As mulheres da América Latina estiveram à frente dos debates desta semana na Conferência da ONU sobre a mulher, lutando principalmente para que o encontro priorize o combate à pobreza.
A pobreza atinge atualmente 36% dos 450 milhões de latino-americanos, principalmente as mulheres, afirmam ativistas que participam da reunião, conhecida como Pequim mais cinco, pois acontece cinco anos após a Quarta Conferência Mundial da Mulher, celebrada na capital chinesa em 1995.
Constatando que cerca de 70% das mulheres vivem na pobreza, a Plataforma de Ação para a igualdade da mulher, assinada em Pequim, adotou entre seus principais desafios o combate a este problema, lembram as ativistas dos direitos da mulher.
Segundo a nicaraguense María Teresa Blandón, o empobrecimento das mulheres na América Central adquiriu dimensões dramáticas. Esta crítica ressoa também entre argentinas, peruanas e bolivianas, presentes à Conferência.
Por isso, explicam, as latino-americanas estão à frente desta luta, denunciando que o documento (que deve ser assinado hoje pelos mais de 180 Estados membros da ONU) é muito frágil e não oferece ferramentas, nem recursos, nem impõe prazos para o combate à pobreza.
Este é um dos pontos mais difíceis, pois se está mexendo no bolso dos poderes econômicos, disse a peruana Gina Vargas, precisando que, por isso, se constata uma divisão neste tema entre os chamados países industrializados do Norte e os países do Sul.
Ativistas da região, reagrupadas na Rede Latino-Americana, apontam os programas de ajuste estrutural como responsáveis pelo aumento da pobreza na América Latina e pelo fato de o problema vir afetando cada vez mais as mulheres, por isso falam em feminilização da pobreza. No banco dos réus estão o Banco Mundial (BM) e o Fundo Monetário Internacional.
O Banco Mundial continua sem aumentar o investimento nas mulheres, como se comprometeu em Pequim, o que contribuiu para o aumento da pobreza, disse à AFP a mexicana Laura Frade Rubio, coordenadora da campanha O Banco Mundial na mira das mulheres.
Frade Rubio, cujo grupo avaliou os programas impulsionados pelo BM em 10 países da América Latina e do Caribe, informa que o grupo viajará para Washington semana que vem, para pedir ao Banco que reduza os investimentos em programas de ajuste estrutural. Estes investimentos no ajuste estão agora em 65%, o que vai de encontro ao que determinam as normas do BM, disse Frade, acrescentando que pedirá ao órgão financeiro mundial que aumente os investimentos dirigidos às mulheres.
Ao mesmo tempo, as latino-americanas convocam os governos, partidos e Parlamentos da região a assumir, em um diálogo com a sociedade civil, uma busca de modelos alternativos, democráticos e descentralizados, como informou a uruguaia Liliana Zeliberti, coordenadora da Rede. Comprovou-se que os modelos econômicos impulsionados na década de 90 pelos países da região não contribuiram para o fim das desigualdades, nem para um desenvolvimento humano sustentável, explica.
Por isso, é necessária a busca de modelos alternativos, mais solidários e mais feministas, acrescentou Zeliberti, insistindo que não haverá desenvolvimento nem igualdade social sem a participação das mulheres.


