O movimento feminista do Afeganistão começou a elaborar ontem uma lista de reivindicações para apresentar ao novo governo interino do país. Segurança, educação e o direito de trabalhar são alguns dos itens que necessitam de atenção imediata, afirma Soraya Parlika, fundadora da recém-criada ''União das Mulheres do Afeganistão''.
''Queremos conversar com o novo governo para expor nossos interesses. Temos que recuperar muitos anos perdidos''. O acordo de divisão de poder surgido dos nove dias de intensas negociações na Alemanha inclui duas mulheres no gabinete formado por 30 membros, as duas são médicas.
Simar Samar, que trabalha em postos de saúde no Paquistão cuidando de refugiados afegãos, será a ministra encarregada das questões da mulher e uma das cinco vice-líderes sob o comando de Hamid Kazai. Suhaila Sidiq, uma renomada cirurgiã do hospital militar de Cabul, será a ministra da Saúde. ''Queremos uma reunião com Sima e Suhaila assim que possível. E também queremos encontrar todos os outros ministros, especialmente o da Educação'', disse Parlika.
''Gostaríamos de fazer uma coordenação com o trabalho deles, e colaborar com Mir Wais Sadeq'', o ministro do Trabalho e Bem-estar Social. A Educação é uma das três pastas já preenchidas, junto com a Reconstrução e o Funcionalismo Público.
Durante os anos do poder taleban, as mulheres tiveram seu direito à educação e ao trabalho negados e só podiam sair de casa se acompanhadas de um parente homem. A esmola tornou-se a única fonte de renda de milhares de mulheres viúvas durante os anos de guerra.
O representante especial das Nações Unodas para o Afeganistão, Lakhdar Brahimi, admitiu que o acordo de Bonn não concede direitos iguais às mulheres. ''Mas duas mulheres no governo já é uma primeira vitória'', reconheceu Parlika. ''No futuro teremos outras mais porque o futuro do Afeganistão está nas mãos das mulheres''.
Suhaila Sidiq recusou-se a conceder entrevistas desde sua indicação, mas Parlika a descreve como uma trabalhadora incansável e uma médica dedicadíssima, que inclusive tratou dela quando foi ferida em uma agressão sofrida nas violentas ruas de Cabul durante o regime taleban.
''Ainda não temos segurança nas ruas. Poucas mulheres ousam mostrar o rosto, elas têm medo. Algumas mulheres recentemente foram atacadas por agressores perto de Jalalabad e as mulheres temem que isso logo acontecerá em Cabul''. Nas ruas de Cabul, Shakilla Kosi, 25 anos, afirma que duas mulheres no Governo ainda não é suficiente.
''Estou contente por temos alguém lá, depois de tanto tempo sem a participação das mulheres, mas deveria haver mais mulheres no próximo governo'', lamenta Parkila. Uma das liberdades que Kosi mais anseia é o direito de dirigir carros. Em um país onde as mulheres estão desesperadas por conseguir direitos iguais e liberdade de expressão, as novidades ainda são muito lentas.

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