Moscou - Desmoronamento da URSS, privatização da economia, guerra na Chechênia: os moscovitas reagiram ontem com desprezo ou aversão à morte do ex-presidente russo. Boris Yeltsin morreu ontem aos 76 anos em Moscou, em decorrência de uma doença cardíaca. Yeltsin sempre foi uma figura política polêmica. Em sua biografia, lançada em 2000, reconheceu que, em alguns momentos de seu mandato (1991-99), agiu sob a influência do álcool e recordou uma situação constrangedora em Berlim, em 1994. O sepultamento do ex-presidente será amanhã.
''Ele vendeu o país e eu tinha confiança nele'', lança com cólera Vladimir, 61 anos, médico aposentado que passeia de braços dados com a mulher. ''Meu pai, que passou 50 anos no Partido (comunista) pensava que o que seria feito, seria verdadeiramente pelo povo. Mas ele o fez para um grupo de escroques''.
Fazendo pouco caso desta obrigação, um passante que ouviu a conversa se pôs a gritar: ''Morreu? É um traidor, um traidor, ele liquidou a Rússia''.
''Ele fez bem em parar a guerra na Chechênia e fazer as reformas, mas as elites e os políticos lucraram com a guerra'', disse. ''Meus sentimentos são contraditórios. De um lado, foi o período em que surgiram as transformações democráticas na Rússia'', declarou Timour, um analista de uma sociedade de investimentos de 24 anos.
Nas proximidades do Teatro Bolchoi, uma manifestação improvisada por uma dúzia de jovens ''festeja a morte de Yeltsin'', estendendo bandeiras e cartazes da juventude da União Eurasiática, uma organização nacional marginal.
Apesar do sentimento negativo, alguns são mais solidários. ''Boris Yeltsin nos mostrou que se pode viver de outra maneira, livre, e que nossa vida só depende de nós mesmos, mas ele se isolou'', disse o artesão Piotr Loznitsa de 42 anos. ''Ele nunca entendeu quais foram seus principais erros: a guerra na Chechênia, a pobreza da população e as perdas geopolíticas da Rússia'' provocadas pelo desmantelamento da União Soviética que assinou no final de 1991, acrescentou.
''Acho que toda a Rússia se rejubila em silêncio'', afirma um dos manifestantes, Pavel Zarifouline, 29 anos. ''Ele destruiu o país, só (Mikha‹l) Gorbatchev fez pior''.
Líderes mundiais prestaram tributo ao ex-presidente russo por seu papel corajoso na defesa da democracia depois do colapso traumático da União Soviética. ''Apresento minhas profundas condolências à família de um homem em cujos ombros repousaram muitas grandes obras para o bem do país e erros sérios: um trágico destino'', disse o ex-líder soviético.

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