O presidente da Rússia, Boris Yeltsin, voltou a pedir ontem uma solução negociada para a crise em Kosovo, mas seu país está muito enfraquecido para impedir uma operação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na Sérvia. ‘‘Não se pode admitir ataques da Otan’’ na Sérvia, disse Yeltsin, ao denunciar novamente ‘‘toda ingerência de uma força da Otan’’ na crise de Kosovo. Moscou ‘‘insiste energicamente que seja encontrada uma solução política para a crise’’, agregou o mandatário, antes de se reunir com seu ministro da defesa, Igor Sergueiev, segundo a agência Interfax.
Quinta-feira, a secretária de Estado americana, Madeleine Albright, e o ministro britânico das relações exteriores, Robin Cook, afirmaram que a Rússia não vai dispor de ‘‘um direito de veto’’ sobre uma eventual intervenção da Aliança Atlântica na Sérvia, depois que o Grupo de contato se reuniu em Londres para analisar a situação em Kosovo.
O chanceler russo, Igor Ivanov, respondeu que ‘‘somente o Conselho de Segurança das Nações Unidas’’, no qual a Rússia tem direito de veto, pode ‘‘decidir o uso da força’’. O ministro russo destacou que eventuais ataques aéreos ‘‘teriam graves consequências’’ nas relações internacionais.
Ao afirmar que não precisavam da aprovação da Rússia para enviar aviões para bombardear alvos na Sérvia, Washington e Londres mostraram que não temiam as ameaças de represálias diplomáticas feitas por Moscou no caso de um intervenção da Otan.
A Rússia ameaçou sucessivamente com o retorno ‘‘à guerra fria’’, um adiantamento da ratificação do acordo de desarmamento START II sobre as armas nucleares, a suspensão da participação da Rússia no Conselho Conjunto Permanente da Otan, criado em maio de 1997, a ruptura de todas suas relações com a Otan e um aumento do potencial militar russo.
A determinação dos Estados Unidos e Grã-Bretanha de ignorar a posição de Moscou é o segundo revés importante sofrido pela Rússia nos últimos dias em relação à crise de Kosovo.
Na quarta-feira passada, a Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa (Osce) negou-se a enviar uma missão a Kosovo para estudar a situação na zona, recusando um convite do presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, depois que uma delegação russa de alto nível visitou Belgrado.
Moscou apresentou essa proposta como um gesto positivo de Milosevic, mas a Osce classificou tal convite de ‘‘tática dilatória’’.
Por outro lado, a Comissão de Defesa da Duma (câmara baixa do Parlamento russo) não exclui o envio de ajuda militar a Iugoslávia ‘‘se os acontecimentos evoluirem para uma ação militar nesse país’’, advertiu o presidente da comissão, Roman Popkovitch, a Rádio Eco de Moscou.
Perguntado sobre a possibilidade de ajudar militarmente a Iugoslávia, Popkovitch declarou: ‘‘Sim, se for aprovado pelos parlamentos dos dois países’’, Rússia e Iugoslávia.
Denúncia Os Estados Unidos querem separar Kosovo da Sérvia, afirmou na manhã de ontem o vice-premier sérvio Vojislav Seselj em uma entrevista concedida à TV privada Palma.
Os Estados Unidos ‘‘insistem em separar Kosovo da Sérvia de qualquer forma e estão empenhados em considerar esta província uma entidade a parte, com um estatuto especial’’.
Evocando o ‘‘plano de paz norte-americano para Kosovo’’, Seselj estimou que os Estados Unidos têm consciência de que não existe atualmente nenhuma base legal para a independência desta província.
Os Estados Unidos insistem em soluções que se aproximam do estatuto que gozava Kosovo em virtude da Constituição de 1974, para criar uma base para a secessão.
‘‘Se aceitarmos agora um estatuto de república para Kosovo, dentro de quatro ou cinco anos teremos ali um governo albanês que organizará um referendo sobre a secessão e não teremos nenhum meio para impedi-lo’’, declarou Seselj, presidente do Partido Radical (extrema direita).France PresseO presidente russo Boris Yeltsin recebe, para consultas, o ministro de Defesa da Rússia, Igor Sergueiev
Nicolas Miletitch
France Presse

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