Morreu Schumann, o homem sem rosto
Maurice Schumann, um dos mais antigos companheiros de De Gaulle, morreu ontem aos 86 anos. Durante meio século de vida política, foi várias vezes ministro, inclusive das Relações Exteriores, e era membro da Academia Francesa.
Mas durante muito tempo, Schumann foi, para os franceses, um homem sem rosto, uma voz. Imaginem os anos terríveis, 1940-44. A França está sob a ocupação. Por toda parte há soldados alemães, homens da Gestapo e policiais a serviço do governo do marechal Pétain. Todos os jornais, todas as estações de rádio estão sob as ordens dos nazistas.
Toda noite, o toque de recolher esvazia as ruas da cidade e mergulha o país nas trevas. Mas em muitas casas, o pai, a mãe, os filhos reúnem-se em torno do velho aparelho de rádio e procuram uma voz, uma voz livre. A de Maurice Schumann, que faz o apelo da resistência, das notícias da guerra e exalta a França.
Voz cálida, vibrante, grandiloquente, enfática, inesquecível. Hoje ainda, as pessoas mais idosas, quando evocam aqueles anos de chumbo, ouvem o som daquela voz que oscila entre o entusiasmo e o soluço. Era Schumann também quem pronunciava, na BBC, as mensagens em código para os membros da Resistência, anunciando uma descida de pára-quedistas ou uma prisão. Foi ele quem, em 1944, declamou no rádio os versos célebres de Paul Verlaine: Les sanglots longs des violons de lautomne... (Os longos soluços dos violinos do outono...). E toda a França sabia que, com isso, ele estava anunciando o desembarque americano iminente.
A guerra de 1939 definiu o destino de Schumann. Até então, ele era um simples jornalista, no Sept, um jornal hoje esquecido, mas que tinha, entre seus colaboradores, o romancista François Mauriac e Hubert Beuve-Méry que, mais tarde, fundaria o Le Monde. Chega a derrota francesa de 1940 e um general, recusando o armistício, foge para Londres. Esse general diz que a guerra não está perdida e deve-se continuar o combate. Ele se chama Charles de Gaulle. E o jovem Maurice Schumann, nesse momento de grande desespero, também escolhe a esperança. Vai para Londres e De Gaulle o nomeia a voz da França.
Durante quatro anos, noite após noite, a sua voz dirá: Ici Londres. Les Français parlent aux Français... (Aqui Londres. Os franceses falam aos franceses...)
Em 1945, no fim da guerra, descobre-se o rosto que há por trás da voz: um homem alto, agitado, cheio de vida, generoso e que não quer se contentar com esse passado magnífico. Lança-se à política. Funda um novo partido, o MRP (democrata-cristão) e, daí em diante, nunca mais deixará de ser eleito deputado. Um outro traço de Maurice Schumann: ele, que foi provavelmente um dos mais fiéis amigos de De Gaulle, foi também um de seus raros seguidores que o enfrentavam e discordavam dele.
Mas ainda que o papel político de Schumann tenha sido determinante, o homem que acaba de morrer continuará sendo sempre o dos anos de guerra, em que ele galvanizou as energias de todo um povo. Continuará a ser também, dentro do universo corrompido em que a França tinha mergulhado, uma alma, uma consciência intrépida e inalterada.
Depois que o escritor e político André Malraux desapareceu, Maurice Schumann era o único a conseguir arrebatar a multidão com discursos pronunciados num tom de voz ridículo, mas bonito.
Seis anos atrás, durante uma peregrinação a Colombey-les-deux-Églises, a aldeiazinha onde repousam os restos do general Charles de Gaulle, Maurice Schumann fez uma vez mais a multidão derramar lágrimas ao exclamar: Aproxima-se o dia, meu general, em que, entre os que vierem visitar o seu túmulo, já não haverá mais nenhum de seus primeiros companheiros! Mas isso não tem a menor importância! Se a sua velha guarda é de um outro tempo, o seu tempo, meu general, está apenas começando!(AE)





