Nova York- A morte do brasileiro Sérgio Vieira de Mello no atentado contra a sede da ONU em Bagdá na terça-feira encerrou a carreira de um homem que era cotado para ser secretário-geral das Nações Unidas, devido sua imagem impecável e excelente trabalho em duas missões de sucesso, Timor Leste e Kosovo, que mostraram aos críticos que a ONU pode ser eficaz.
Um suicida ao volante de um caminhão-bomba, carregado com 400 quilos de explosivos, acabou com a vida do brilhante diplomata e a de outras 22 pessoas. ''Ser um homem do sistema não significa ser um burocrata que passa a vida sentado num gabinete'', costumava dizer.
O brasileiro trabalhou para as Nações Unidas durante os 30 anos de sua carreira diplomática. Ele sempre se dizia tão brasileiro que o secretário de Estado americano, Colin Powell, declarou na quinta-feira: ''Meu coração está com o Brasil''.
No último discurso para o Conselho de Segurança da ONU, no mês de julho, Vieira de Mello advertiu: ''A presença das Nações Unidas no Iraque continua sendo vulnerável aos olhos de todos aqueles que querem ter a nossa organização como um alvo''.
O caráter profético de suas palavras estava fundamentado num vasto conhecimento de campo, graças ao trabalho de liderança que exerceu em duas das missões mais difíceis e complexas da ONU nas últimas décadas: Kosovo e Timor Leste.
Ele passou o mês de junho de 1999 na região dos Balcãs, mas seus quase três anos como representante especial do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, na província do sudeste asiático (de outubro de 1999 a maio de 2002) lhe reservam um lugar de destaque na história da ONU.
Num cenário de terror, marcado pela ação violenta das milícias de Jacarta, que mataram milhares de pessoas, o brasileiro protegeu a transição da província até sua independência e teve papel fundamental no estabelecimento das bases institucionais de Timor Leste. ''Os timorenses do leste perderam um grande amigo e irmão'', lamentou o chanceler do novo país, José Ramos Horta.
Faltavam poucos dias para Sérgio Vieira de Mello cumprir seu mandato de quatro meses como representante especial de Kofi Annan no Iraque, antes de voltar a assumir o cargo de Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, que ocupava desde setembro de 2002.
Sua morte, no pior ataque sofrido pela ONU desde sua criação em 1946, foi lamentada em todo o mundo, especialmente por seus companheiros de trabalho, que na quarta-feira se abraçavam e choravam longe das câmeras, na cafeteria da sede das Nações Unidas em Nova York.

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