Monarquias voltam a ganhar espaço
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quarta-feira, 29 de agosto de 2001
Gilles Lapouge<BR>Agência Estado<BR>De Paris 
Os crimes da história são infinitos. Suas distrações e seus caprichos também. Por exemplo, no início desse milênio, descobre-se que a rainha Vitória, a poderosa soberana inglesa do século 19 (1819-1910), que continua a ser o símbolo do Império britânico estilo Kipling, o símbolo do puritanismo e da ordem social, está prestes a ser reintroduzida na Europa, por intermédio dos representantes de seus descendentes. Três descendentes de Vitória giram em torno de seu antigo trono, trono do qual foram caçados por Hitler e Stalin: Simeão II da Bulgária, Alexandre da Iugoslávia e Michel I da Romênia.
Como Vitória conseguiu essa proeza ''post mortem''? Acontece que ela foi casada com Albert de Saxe-Cobourg (do qual descende Simeão I da Bulgária) e o casal britânico teve nove filhos. Por sua vez, esses nove filhos casaram-se com herdeiros de todos os tronos da Europa, sendo assim a grandeza da Inglaterra explicada tanto pelo poder de seu exército imperial quanto por sua agilidade matrimonial.
Segunda questão: por que os países balcânicos manifestam esse vivo sentimento monárquico? Acontece que todos esses infelizes Estados viveram, desde o fim da monarquia (por volta da Segunda Guerra Mundial) duas ou três catástrofes.
A primeira catástrofe foi Hitler. Mal a guerra acabou, deu-se a segunda catástrofe: o comunismo. Quanto à terceira catástrofe foi a passagem delirante para a ''democracia'' e para o ''mercado'': sendo a democracia, nesse caso, sinônimo de corrupção e o mercado, sinônimo de miséria, às vezes também, de fome. Então, os povos totalmente desencorajados dizem que, em última análise, a monarquia não era tão ruim assim.
Somente na Bulgária aconteceu isso. Simeão II de Saxe-Cobourg tornou-se primeiro-ministro no dia 13 de julho, após eleições legislativas que deram a vitória a seu partido. Desde então, ele ''interpreta'' o primeiro-ministro. Nada besta, astucioso, flexível, tolerante, é modesto e jura que não tem ambição política, muito menos monárquicas (é verdade?). Curioso destino: nasceu em 1937, foi consagrado rei com 6 anos de idade, em 1943, expulso em 1946 e, em seguida, morou em Madri, é agora o primeiro-ministro democrático.
O príncipe Alexandre da Iugoslávia, mesmo que tenha se mexido um pouco, no momento tem um ''espaço'' muito estreito. Além disso, voltar a uma Iugoslávia eternamente enlouquecida, seria um empreendimento meio arriscado. Melhor esperar as brasas esfriarem.
Michel I, da Romênia (Hohenzollern), é diferente. Sem dúvida, como seu homólogo búlgaro Simeão, Michel I conseguiu entrar em seu país em maio, mas encontrou apenas um status simbólico (além de um punhado de palácios bonitos). Seu destino ainda é mais extraordinário (do Bertollucci...). Rei com 6 anos de idade, em seguida perturbado com a chegada do marechal Antonescu e com as revoltas da ''guarda de ferro'' (movimento romeno pró-nazismo), em seguida perseguido também pelos comunistas, e depois o exílio, a abdicação. Tentou voltar para a Romênia várias vezes, mas foi expulso ainda no aeroporto de Bucareste, antes de ser finalmente aceito em maio deste ano.
Uma última situação: Leka Zogu, rei da Albânia, filho do bom rei Zog.
Encontra-se continuamente no exílio em Johannesburgo, mas está impaciente para voltar a seu país. Um país tão desmantelado pelo comunismo e, em seguida, pela democracia, que muitos aspiram uma volta do monarca. Mas Leka não parece ter a grandeza moral de Michel da Romênia ou a hábil flexibilidade de Simeão da Bulgária. Acusado de ter tentado vários golpes de Estado, é muito mal conceituado pela classe política. Acusado de se dedicar ao comércio de armas, na África do Sul.
E embora o povo, esgotado pelos anos ''vermelhos'', depois pela volta de uma corrupção desenfreada, e perturbado enfim pelas questões do Kosovo vizinho (cheio de albaneses), sinta uma certa ligação com a idéia da monarquia (o rei Zog, antes da guerra, foi um bom soberano e a Albânia na época foi próspera), o atual pretendente é efetivamente apoiado apenas por grupos monarquistas ou de extrema direita.


