Mistério cerca queda de avião egípcio
Paulo Sotero
Agência Estado
De Washington
O navio Grapple, da Marinha dos Estados Unidos, que é especialmente equipado para fazer buscas de destroços no fundo do mar, e mais de duas dúzias de embarcações, aviões e helicópteros da Guarda Costeira americana continuaram ontem a operação de busca do que restou do Boeing 767-366ER da Egypt Air, que despencou dos céus no início da madrugada do domingo, com 217 passageiros e tripulantes a bordo, meia hora depois de ter decolado do aeroporto John F. Kennedy, para o que deveria ter sido um vôo de 11 horas até o Cairo.
Dezenas de investigadores do National Transportation Safety Board (NSTB), a agência federal incumbida de examinar as causas de acidentes com meios públicos de transporte nos EUA, e seiscentos agentes do Federal Bureau of Investigation (FBI) trabalham para elucidar a catástrofe. Até a manhã de ontem, porém, apenas um corpo, alguns artigos pessoais e uns poucos itens do próprio avião, como coletes salva-vidas, assentos de poltronas e duas rampas infláveis de evacuação nenhum exibindo sinais de fogo ou explosão tinham sido encontrados na área de cerca de 90 quilômetros quadrados onde se concentram as buscas, a uma centena de quilômetros ao sul da ilha de Nantucket, Massachusetts.
À tarde, o almirante Richard M. Larrabee, da Guarda Costeira, informou que as equipes estavam encontrando mais sinais de restos humanos e haviam localizado um pedaço significativo do avião. Larrabee aconselhou as famílias dos passageiros e tripulantes a abandonar as esperanças de que alguém tenha sobrevivido ao acidente.
Uma das caixas pretas do vôo 990 foi localizada pela guarda-costas norte-americana, revelou o diretor do Bureau Nacional para a Segurança dos Transportes (NTSB), Jim Hall.
Com a mudança do tempo ameaçando dificultar a recuperação dos escombros a partir de hoje, Jim Hall, avisou que não se deve esperar uma elucidação rápida da tragédia: Estamos no início do que poderá ser uma longa investigação, disse ele.
A relativa escassez de escombros e a ausência de qualquer pista no pouco que já foi encontrado apenas aumentava ontem o mistério da tragédia do vôo 990 da EgyptAir. Ao contrário do desastre com o Boeing 747 da TWA, que explodiu no ar e caiu no mar a poucos quilômetros de Long Island, apenas minutos depois de ter decolado do aeroporto Kennedy com destino a Paris, em em julho de 1996, a catástrofe do avião egípcio não teve testemunhas. Para complicar, o aparelho caiu numa área onde a profundidade média é de mais de 90 metros, o que dificultará enormente a operação de recuperação dos escombros. O Boeing da TWA caiu num lugar mais raso, com profundidades de 30 a 40 metros. Isso permitiu o resgate de 98% do avião, a remontagem do aparelho e a descoberta da causa provável do acidente: uma explosão no tanque central de combustível, provocada pela acumulação de gases num dia de intenso calor.
No caso do 767 da EgyptAir, a única informação definitiva sobre o acidente disponível ontem à tarde foi produzida pelo exame inicial das fitas dos radares do serviço de controle do tráfego. Este revelou que às 1h52 da manhã do domingo, 33 minutos depois da decolagem de JFK e quando já havia atingido sua altitude de cruzeiro de aproximadamente 10 mil metros, algo de catastrófico ocorreu e o Boeing da EgyptAir entrou no que o NSTB chamou de um mergulho em alta velocidade.
Segundo o NTSB, os gravadores da central de controle de vôo em Nova York, que ainda tinha o avião em seu radar, não registraram pedidos de socorro do piloto ou do co-piloto do Boeing da EgyptAir.
Não se sabe ao certo quanto tempo levou para o avião, que estava praticamente lotado, chocar-se contra as águas gélidas do Oceano Atlântico. As fitas mostram apenas que o Boeing caiu de mais de 10 mil metros para cerca de 6 mil em apenas 36 segundos. A partir daí, o avião, ou parte dele, continuou visível ao radar por mais 90 segundos.
A menos que a busca esteja sendo feita no lugar errado, o fato de muito pouco dos escombros do 767 ter vindo à tona sugere que o aparelho pode não ter se desintegrado ao bater na superfície do oceano. Mas essa possibilidade é considerada improvável pelos especialistas, dada a força do choque do avião com a água, e sugere a hipótese inversa: que a desintegração foi tal que pouco ficou para ser encontrado. A montagem do quebra-cabeças que poderá levar à elucidação do acidente é um penoso trabalho de exclusão de hipóteses, que deverá demorar meses para ser concluído e não será facilitado pelo excelente histórico seja do aparelho acidentado ou seja do modelo de avião.
O 767 da EgyptAir foi comprado novo em 1989, já havia voado 33.334 horas e realizado 6.900 decolagens. Cerca de 60 companhias áereas operam uma versão do 767 igual ao avião sinistrado, com motores Pratt&Whitney. Lançado em 1982, o 767 esteve envolvido em apenas um acidente com vítimas fatais provocado por falha mecânica: Em 1991, 223 passegeiros e tripulantes morreram na Tailândia, depois que um das turbinas do aparelho entrou em reversão logo após a decolagem.
A presença de centenas de agentes do FBI na investigação, que o governo do Egito solicitou formalmente a Washington, indica que o terrorismo não foi descartado como causa do acidente. Mas não há nada que aponte nessa direção. É difícil imaginar qualquer evento que envolva os Estados Unidos e o Egito e um punhado de outros países no qual não se levantaria a suspeita de sabotagem, disse Brian Jenkins, um especialista em segurança aérea. Mas, a esta altura, isso é apenas especulação e o fato de eu estar falando sobre o assunto não deve levar ninguém a concluir que sabotagem seja provável nesse caso.
Embora a maioria dos passageiros do avião da EgyptAir fosse de americanos, a catástrofe parece ter gerado menos interesse do que três acidentes anteriores que mobilizaram operações semelhantes de busca na região. Além da tragédia do vôo 800 da TWA, houve, em setembro do ano pasado, o desastre do vôo 111 da Swissair, na Nova Escócia, Canadá, e, em julho, o desaparecimento de John F. Kennedy Jr., de sua mulher e cunhada, no monomotor que ele pilotava.





