O deposto presidente iugoslavo Slobodan Milosevic foi preso na madrugada de ontem em Belgrado, após 26 horas de tensão e informações contraditórias.
Acusado pela Justiça iugoslava de abuso de poder e corrupção, Milosevic é procurado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) para Crimes de Guerra na ex-Iugoslávia, instalado em Haia, por crimes contra a humanidade. O ex-presidente declarou ser inocente.
Setores do Exército iugoslavo ainda se mantêm leais a Milosevic e havia o temor de confronto armado com os comandos da polícia militar encarregados de efetuar a prisão.
Uma negociação, porém, permitiu que o ex-líder sérvio se entregasse e fosse levado a um centro de detenção na periferia de Belgrado.
De acordo com a emissora de tevê sérvia BK, Milosevic cumprirá um período de 30 dias de detenção provisória. Desde sexta-feira, quando policiais se dirigiram à casa de Milosevic para efetuar a prisão, funcionários do governo iugoslavo e fontes ligadas ao ex-presidente deram versões contraditórias sobre o fato.
Na madrugada de sábado, em meio a rumores de que era iminente a invasão policial de sua casa, Milosevic advertira que ‘‘jamais se entregaria vivo’’.
Depois da rendição, uma filha de Milosevic, Marija, fez alguns disparos para o alto. Mas, apesar de alguns choques entre manifestantes contra e a favor de Milosevic, não houve feridos graves.
‘‘O presidente Milosevic decidiu comparecer à Justiça para defender-se das acusações falsas contra ele’’, disse seu advogado, Toma Fila. ‘‘Ele prestará todos os esclarecimentos e a verdade triunfará.’’
Outro colaborador de Milosevic, Branislan Ivkovic, disse que o ex-presidente só se entregou para ‘‘aliviar o processo legal e evitar um banho de sangue’’.
‘‘Presenciamos acontecimentos dramáticos, que passaram pelas afirmações de que não prenderíamos Milosevic vivo e até mesmo as que asseguravam que ele mataria a mulher e a filha antes de suicidar-se’’, declarou o ministro do Interior sérvio, Dusan Mihajlovic. ‘‘Mas, no fim, a razão prevaleceu.’’
A prisão de Milosevic deu-se no dia em que venceu um ultimato dado pelo Congresso dos Estados Unidos para que as autoridades da Iugoslávia detivessem o ex-presidente para entregá-lo ao TPI – como condição para que os EUA mantivessem a ajuda financeira ao país.
Mas o governo iugoslavo de Vojislav Kostunica tem insistido que pretende julgar o ex-presidente nos tribunais de Belgrado, sob a alegação de que a Iugoslávia violaria sua Constituição, caso procedesse a extradição de um cidadão para o TPI.
Na visão dos juristas de Haia, no entanto, Milosevic poderia ser entregue ao tribunal sem a necessidade de mudar nenhuma lei iugoslava, partindo-se do princípio de que a legislação internacional precede a nacional.
Além disso, juridicamente, trataria-se da transferência de Milosevic e não de sua extradição, uma vez que o TPI não é um Estado.
Em Washington, o presidente norte-americano, George W. Bush, emitiu uma nota na qual qualificou a prisão de Milosevic como ‘‘o primeiro passo para que ele seja julgado pelos crimes contra a humanidade dos quais é acusado’’.
‘‘Damos boas-vindas à prisão de hoje’’, disse Bush. ‘‘Essa detenção representa um importante passo na direção de pôr fim a uma era trágica, de uma ditadura brutal.’’

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