Associated Press
Enquanto novas evidências de massacres emergiam em Kosovo, o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic conquistava ontem o apoio condicional de um grupo oposicionista-chave numa campanha para abafar seus críticos, manter o poder e evitar um processo por crimes de guerra.
Milosevic e quatro assessores foram indiciados pelo tribunal de crimes de guerra da Organização das Nações Unidas (ONU) por atrocidades cometidas contra a maioria albanesa étnica de Kosovo desde fevereiro de 1998. Líderes ocidentais têm se recusado a ajudar na reconstrução da Iugoslávia enquanto Milosevic continuar no poder.
Cerca de 10 mil pessoas compareceram anteontem a uma manifestação numa cidade do centro da Sérvia para exigir a renúncia de Milosevic. A Aliança pela Mudança marcou para hoje um segundo protesto contra o governo em Novi Sad, segunda maior cidade sérvia e que foi duramente bombardeada pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
Enfrentando pedidos por sua renúncia e uma crise econômica e social cada vez maior, o presidente linha-dura iugoslavo tem feito acenos a vários grupos políticos.
Ivica Dacic, porta-voz do Partido Socialista, de Milosevic, fez um apelo ontem pela reorganização do governo a fim de incluir todos os partidos representados no parlamento - exceto a Aliança pela Mudança.
Nesta quinta-feira, um grande partido pró-democrático, o Movimento pela Renovação Sérvia, indicou o interesse de participar do governo caso ele seja ampliado para incluir opositores de Milosevic em Montenegro, a menor das duas repúblicas iugoslavas.
O líder do extremista Partido Radical Sérvio, Vojislav Seselj, disse que uma coalizão de governo ‘‘é necessária para evitar as intenções dos Estados Unidos de dividir ainda mais a Iugoslávia’’.
Em Kosovo, oficiais alemães afirmaram que, aparentemente, paramilitares sérvios mataram pelo menos 119 pessoas durante uma repressão em Celine e Nagafc. Um contagem final foi postergada por causa de minas terrestres e armadilhas na área.
Em Celine, moradores disseram que entre os mortos estavam Myftar Zeqiri, 60 anos, e 22 outros membros de sua família que foram posteriormente enterrados numa cova comum distante cerca de 100 metros da casa deles. Roupas, colchões e sapatos ainda estavam espalhados num caminho até a casa incendiada.
Paramilitares sérvios têm sido acusados por muitas das atrocidades cometidas em Kosovo e iniciadas em março. Eles deveriam ter partido de Kosovo como parte de um acordo que pôs fim aos 78 dias de bombardeios da Otan.
Em Pristina, o brigadeiro-general norte-americano John Craddock disse que as forças dos Estados Unidos estão investigando notícias de que paramilitares sérvios ainda estão atuando em Kosovo. Tropas norte-americanas se viram duas vezes na semana passada sob fogo de franco-atiradores, mas não houve feridos.
Soldados de paz têm tentado restaurar a ordem e evitar ataques de represália de albaneses étnicos contra sérvios desde que a Otan entrou na província em 12 de junho.
O Serviço de Informação da Igreja Ortodoxa Sérvia informou que albaneses étnicos assassinaram ontem um fazendeiro e dois condutores de trator sérvios em duas cidades de Kosovo. O fazendeiro teria sido morto depois de ignorar advertências de albaneses-kosovares para deixar a província.
O governo iugoslavo reclamou ontem que os soldados de paz não estão fazendo o suficiente para evitar ‘‘terrorismo’’ contra não albaneses, incluindo sérvios, ciganos e outros.
Pelo plano de paz, Kosovo continua sendo parte da Iugoslávia, apesar de estar efetivamente sob controle da Otan e da ONU. Mais de metade dos 860 mil albaneses étnicos que fugiram de Kosovo desde março já retornou para casa, a maioria da Albânia e da Macedônia.

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