Milosevic manda reprimir manifestantes na Iugoslávia
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 03 de outubro de 2000
Associated Press De Belgrado 
O governo da Sérvia (que, com Montenegro, forma a Iugoslávia) poderá adotar poderes de emergência na repressão à campanha oposicionista para forçar o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, a aceitar a derrota nas eleições presidenciais de 24 de setembro, informou ontem a TV estatal, controlada por Milosevic.
Com a adoção das medidas especiais, o presidente poderia garantir sua permanência no poder por tempo indefinido, advertiram analistas.
Logo após a ameaça, a polícia sérvia reprimiu manifestação de 50 mil estudantes em Belgrado, o comando do Exército interveio pela primeira vez na crise, exigindo o fim da greve na mina de carvão de Kolubara a maior do país e a Justiça sérvia ordenou a prisão de dois líderes oposicionistas, Neboja Covic e Boris Tadic, sob acusação de organizar a paralisação dos mineiros.
Segundo a rádio independente B2-92, também foi detido o presidente do sindicato dos funcionários dos transportes coletivos, Dragoljub Obradovic, responsabilizado pela greve do setor. A emissora, fechada pelo governo por rejeitar a censura, transmite apenas em um site na Internet. Divulga informações obtidas da agência independente iugoslava Beta e de seus colaboradores e informantes especiais.
Os subversivos e criminosos que prejudicam a população com seus atos de sabotagem, paralisam escolas, fábricas e minas serão castigados, ameaçaram as autoridades em seu comunicado.
Dezenas de milhares de estudantes rumaram para o luxuoso bairro de Dedinje, onde reside o presidente iugoslavo, gritando em coro: Milosevic está acabado. Nos limites do bairro, foram interceptados por unidades especiais das forças de segurança e dispersados. Houve choques e os policiais lançaram granadas de gás lacrimogêneo contra os jovens, que reagiam com pedradas. Não há notícia de feridos graves. Foram feitas algumas prisões.
Os estudantes tinham saído de uma concentração, na Praça da República, diante do prédio do Parlamento, cujos membros haviam rechaçado pedido da oposição para anular a convocação do segundo turno de eleição, marcado para domingo, e determinar a recontagem dos votos do primeiro (vencido com mais de 50%, segundo a oposição, por seu candidato, Vojislav Kostunica).
Manifestações semelhantes à da capital ocorreram em Novi Sad (norte), Nis (sul) e outras cidades da Sérvia. Houve igualmente intervenção policial em Zastava (sul) e em Kragujevac (sudeste). Mas a grande preocupação das autoridades ontem era acabar com a greve dos 7,2 mil mineiros de Kolubara, que já provoca interrupções no fornecimento de energia elétrica em várias regiões da república.
O general Neboja Pavkovic, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, exigiu dos mineiros de Kolubara o retorno imediato ao trabalho, intervindo pessoalmente pela primeira vez em favor de Milosevic. Na semana passada, ele já havia recusado pedido de audiência de Kostunica que lhe queria mostrar evidências da fraude eleitoral. Uma jornalista da rádio de Kolubara, Ljiljana Obradivic, disse que a polícia militar parece pronta para invadir a mina. A situação ali é de grande tensão, acrescentou ela.
No plano político, Milosevic recusou-se a admitir sua derrota eleitoral e reafirmou que irá para o segundo turno. Dizendo-se vítima de fraude grosseira, Kostunica rejeita categoricamente disputar uma nova eleição.
Em meio a esse impasse, a agência russa Itar-Tass informou que Milosevic e Kostunica aceitaram participar de um encontro com o presidente russo, Vladimir Putin, em Moscou. Numa iniciativa vista com pessimismo nos EUA e União Européia, Putin pretende encontrar uma saída política para a crise iugoslava. Nenhuma das partes confirmou a informação da agência noticiosa russa.


