Pela primeira vez alvejando diretamente ao presidente sérvio Slobodan Milosevic, a Otan atacou a luxuosa mansão que serve de residência principal dos presidentes da Iugoslávia, num ataque de mísseis antes do amanhecer desta quinta-feira, nos arredores de Belgrado.
Enquanto isso, a Rússia prosseguiu com seus esforços diplomáticos. Seu enviado especial, o ex-primeiro-ministro Viktor Chernomyrdin, disse após negociações em Belgrado que o presidente iugoslavo aceitou a idéia de uma ‘‘presença internacional’’ controlada pela ONU em Kosovo se a Otan suspender seus bombardeios e retirar suas tropas das fronteiras da Iugoslávia.
Não ficou claro, no entanto, se tal força seria armada e sob que diretrizes iria operar. A Otan tem insistido em uma presença armada em Kosovo para implementar qualquer acordo de paz.
Enquanto líderes aliados chegavam a Washington para a cúpula de 50 anos de aniversário da aliança atlântica, a Otan entregava uma mensagem explícita a Belgrado, mostrando que permanece determinada a esmagar as forças de Milosevic se ele não as retirar de Kosovo e se comprometer com a paz na conturbada província.
Milosevic e sua família não estavam em casa durante o ataque, segundo autoridades estatais - ele tem pelo menos mais uma residência na capital. A Otan afirma que desde que a campanha de bombardeio teve início em 24 de março, Milosevic tem passado cada noite em um bunker diferente.
Enquanto refugiados continuavam a fugir em grande número de Kosovo, onde centenas de milhares de albaneses étnicos continuavam desabrigados vagando pela província, jatos da Otan lançavam dezenas de mísseis na região de Pristina, capital da província, no que a agência de notícias estatal iugoslava Tanjug chamou de os mais intensos ataques diurnos desde o início dos ataques a 24 de março.
Mísseis também alvejaram a segunda maior cidade da Iugoslávia, Novi Sad, num raro ataque diurno. Mas o ataque mais notável foi o que ocorreu por volta das 4 horas da madrugada e atingiu a mansão branca de dois andares no distrito de Dedinje, em Belgrado, uma das residências de Milosevic. Três colunas, pedaços de concreto, estilhaços de vidro e outros destroços cobriam os jardins da mansão. Listras de fuligem negra sujavam arcos onde antes existiam elegantes janelas, e um lado tinha um grande buraco.
Autoridades iugoslavas se disseram ultrajadas com o que para elas foi uma tentativa de assassinato de seu líder. Três bombas guiadas a laser explodiram o quarto de dormir de Milosevic, a sala de estar e a sala de jantar.
‘‘A Otan cometeu um ato criminoso sem precedentes - uma tentativa de assassinato contra um presidente de um Estado soberano’’, disse Goran Matic, o ministro das Comunicações. ‘‘É um ato de terrorismo de acordo com todas as leis do direito internacional’’.
Autoridades da Otan e outras ocidentais disseram que o prédio era um posto de comando presidencial e um legítimo alvo militar. ‘‘Milosevic não é um alvo’’, afirmou o porta-voz da Casa Branca, Joe Lockhart. ‘‘Centro de comando e controle 钒.
Autoridades americanas têm insistido que não estão tentando matar o líder iugoslavo. Leis dos EUA proíbem tentativas de assassinato contra líderes de outros países, mas não banem ataques a instalações - que também podem ser residências de líderes - consideradas centros de comando e controle.
Em dezembro último, vários palácios do presidente iraquiano Saddam Hussein e uma casa pertencente a uma filha dele foram atingidos durante ataques aéreos dos EUA e da Grã-Bretanha. E em 1989, a Força Aérea explodiu uma casa do líder líbio Moammar Kadhafi e sua tenda num ataque a Trípoli.
O ataque da Otan desta quinta-feira marcou uma nova fase, mais pessoal, de sua campanha militar contra a Iugoslávia, e ocorreu um dia depois que mísseis atingiram um prédio de Belgrado que abrigava o partido governista de Milosevic e uma estação de rádio e televisão de sua filha.
A mansão, rodeada por altos muros e bastante policiada, pertenceu ao líder comunista iugoslavo Josip Broz Tito, cujo túmulo de mármore fica cerca de 50 metros atrás da casa.
O ataque ocorreu horas antes da chegada de Chernomyrdin a Belgrado. O enviado russo reuniu-se com o Milosevic no Palácio Branco presidencial da Iugoslávia, em conversações que se estenderam até a noite. Enquanto discutiam, sirenes antiaéreas eram ouvidas do lado de fora.
Mas ao fim do encontro, e antes de voltar para Moscou, Chernomyrdin disse a repórteres: ‘‘Precisamos de mais progresso’’.

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