Militares roubaram sequestrados
Desde o último indulto concedido aos militares em 1990, a antiga ditadura argentina não passava por tão intenso processo de revisão. Uma semana depois da crise causada nas Forças Armadas por uma polêmica entrevista na qual o capitão Alfredo Astiz, ex-sequestrador e ex-torturador, defendia as violações dos direitos humanos, surge um novo escândalo: ex-militares argentinos possuem contas secretas na Suíça.
A notícia não apresenta nada de novo - membros de outras defuntas ditaduras do Continente também escolheram o país europeu para depositar fortunas - exceto num aspecto: no caso argentino poderá ser uma arma letal à disposição de órgãos de defesa dos direitos humanos, empenhados em pôr alguns integrantes da antiga ditadura na prisão.
Isso porque o dinheiro depositado nas contas suíças não teria sido subtraído dos cofres públicos, mas roubado dos 30 mil sequestrados durante o regime militar, que durou de 1976 a 1983. Uma verdadeira indústria de saque, controlada principalmente pela Marinha, que constituiu uma empresa imobiliária com apartamentos, fazendas e empresas dos desaparecidos para revenda. A documentação era obtida mediante tortura ou falsificação de assinaturas. Os militares envolvidos poderiam ir para a cadeia, pois crime de roubo de bens e de dinheiro não figura entre os delitos perdoados pela anistia.
O escândalo emergiu quando a Justiça espanhola, que investiga argentinos envolvidos no desaparecimento de 600 cidadãos espanhóis, anunciou que a promotora suíça Carla del Ponte havia descoberto seis contas bancárias abertas em seu país em nome de militares argentinos durante a ditadura. O titular de uma delas já foi identificado: o capitão-de-corveta Jorge Tigre Acosta, definido como sádico pelos 40 sobreviventes de um total de 5 mil prisioneiros da Escola de Mecânica da Armada (Esma), o principal centro de tortura da ditadura, localizado no luxuoso bairro de Belgrano.
Em fevereiro de 1987, Acosta foi julgado e preso por graves violações dos direitos humanos. Cinco meses depois, foi posto em liberdade com base na chamada lei da obediência devida, que anistiava os oficiais que violavam os direitos humanos por ordens superiores. A divulgação dos titulares das demais depende ainda do juiz espanhol Baltasar Garzón, encarregado das investigações, que está em contato com as autoridades suíças. Garzón pediu ao governo suíço informações sobre contas bancárias de pelo menos uma centena de militares argentinos, entre os quais o ex-almirante Emilio Masserea.(AE)





