AMÉRICA LATINA Militares mantêm influência no Chile Depois de ficar 503 dias detido na Inglaterra, ex-ditador volta festejado pelo Exército. Cerca de 25% da população apóia Pinochet France PresseSantiagoManifestante empurra partidário do ex-ditador durante protesto contra a libertação de Augusto PinochetFrance PresseSucessorO comandante-em-chefe do Exército, o general Ricardo Izurieta (d) recebe Pinochet no Aeroporto Kennedy Alencar Agência Folha De Santiago A volta do ex-ditador Augusto Pinochet ao Chile deixou claro que as Forças Armadas continuam a influenciar os rumos da democracia no país. O poder militar chileno é menor hoje do que no passado recente, mas bem maior do que em democracias vizinhas, como Brasil e Argentina, que também viveram sob ditaduras nas décadas de 70 e 80. ‘‘No Chile, o poder está 50% com o governo, 25% com os empresários e 25% ainda com os militares’’, diz Marta Lagos, do Mori, instituto de pesquisas de opinião. De acordo com Marta, levantamentos mostram que existe um ‘‘temor não dito’’ da população no que se refere ao poder de influência política dos militares e, por extensão, de Pinochet – o maior símbolo do Exército, a força que realmente conta. Ex-comandante da Marinha e senador biônico (não eleito), o almirante da reserva Jorge Martinez Busch declara que ‘‘as Forças Armadas não podem e não desejam abandonar Pinochet’’. Busch defende que o ex-ditador volte a ocupar sua cadeira de senador vitalício. Afirma que a enfermidade de Pinochet se deve ao ‘‘estresse’’ e à ‘‘humilhação’’ a que foi submetido. Pinochet ficou detido 503 dias no Reino Unido, país que analisava um pedido de extradição da Espanha a fim de julgá-lo por crimes cometidos contra cidadãos espanhóis e os direitos humanos. Pinochet foi libertado por razões humanitárias – exames médicos não o consideraram passível de responder a um processo judicial. Há um debate jurídico no Chile a respeito da legalidade de julgar Pinochet, contra quem correm 59 ações. Mesmo que os tribunais julguem pelo fim de sua imunidade parlamentar, existem dúvidas quanto às provas ou ‘‘fortes evidências’’ de culpa, como se diz na linguagem processual chilena, que possam vir a responsabilizá-lo. Entidades de defesa dos direitos humanos temem que, dentro da interpretação das leis (no caso, em relação às ‘‘fortes evidências’’), o ex-ditador acabe por encontrar uma forma de escapar da Justiça. O Exército e a direita chilena empenham-se nesse sentido. ‘‘Pinochet voltou para que possa ser julgado. Se isso não acontecer, será uma vergonha para a nossa democracia’’, diz Viviana Diaz, porta-voz do Grupo de Familiares de Presos Desaparecidos. ‘‘Se o Chile quer mesmo uma reconciliação, sua democracia deve pagar o preço de superar o passado’’, contrapõe o deputado Ivan Moreira, da União Democrática Independente, partido de direita. A ‘‘demonização’’ de Pinochet, ‘‘um herói militar que salvou a pátria do comunismo’’, segundo o discurso de seus defensores, não interessa às Forças Armadas, que ficariam enfraquecidas como atores políticos no Chile. O comandante-em-chefe do Exército, o general Ricardo Izurieta, disse, em nota, que o regresso de Pinochet deve ser aceito ‘‘olhando-se o futuro e o desenvolvimento de nossa pátria’’. Afirmou ainda que a instituição que comanda ‘‘continuará prestando permanente apoio e solidariedade ao capitão-general Augusto Pinochet Ugarte’’. Não foi à toa que o ministro do Interior, Raúl Troncoso, fez o seguinte comentário após a recepção ao ex-ditador, desaprovada publicamente pelo governo: ‘‘É necessário manter a calma, a moderação e o tino’’.