São Paulo - Milhares de pessoas disseram adeus ontem àquela a quem os paquistaneses chamavam carinhosamente de BB, a ex-primeira-ministra e líder da oposição paquistanesa assassinada anteontem, Benazir Bhutto. Ela foi enterrada no mausoléu da família, em sua cidade natal, Garhi Khuda Baksh, ao sul do país, em meio a ondas de violência.
Novos distúrbios foram registrados. No noroeste um ataque a bomba matou quatro pessoas, entre elas um político do partido que apóia o ditador Pervez Musharraf, informou a polícia. Entre anteontem e ontem, ao menos 33 pessoas morreram.
Em Peshawar, também no noroeste, simpatizantes da ex-premiê incendiaram uma sede do partido de Musharraf, o Liga Muçulmana do Paquistão-Quaid (PML-Q) e também apedrejaram um cinema.
A polícia manteve uma atitude discreta, mas as forças paramilitares que atuam na Província de Karachi receberam ordem de abrir fogo para conter os distúrbios caso fosse necessário.
Em Rawalpindi, cidade vizinha de Islamabad, a polícia utilizou bombas de gás lacrimogêneo para dispersar grupos de manifestantes que se dirigiam para a sede do partido do ex-ministro Sheikh Rashid, aliado de Musharraf.
Os manifestantes destruíram e incendiaram os cartazes com a imagem de Rashid. A situação no resto do país permanecia calma, mas, em todas as cidades, a atmosfera é de extrema tensão.
Homenagem - O corpo de Benazir foi recebido em aclamação por milhares de pessoas. O caixão branco foi envolto em uma bandeira negra, verde e vermelha, que simboliza seu partido, o Partido do Povo do Paquistão (PPP). Na passagem do caixão, as pessoas gritavam, choravam e batiam no peito em desespero.
Benazir foi assassinada na quinta-feira logo após participar de um comício - no qual a ex-premiê falou sobre ameaças à sua vida. Bhutto pôs o corpo para fora de seu carro blindado, pelo teto-solar, para acenar aos simpatizantes. Um terrorista primeiro atirou contra ela e depois detonou os explosivos que carregava consigo, segundo a polícia e testemunhas. A explosão deixou ao menos outras 20 pessoas mortas e mais de 100 feridas.
Após o atentado, Bhutto chegou a ser encaminhada para o hospital, mas ela já estava em estado de morte cerebral, segundo um dos médicos que a atenderam. Foram constatados dois ferimentos de bala, um no pescoço e outro na cabeça, com fraturas.
Bhutto estava há 71 dias no país. Ela encontrava-se em plena campanha para as eleições parlamentares marcadas para 8 janeiro. De acordo com as pesquisas recentes, a ex-premiê era a candidata favorita no pleito.
Bhutto governou o país duas vezes, entre 1988 e 1990, e entre 1993 e 1996. Seus dois mandatos foram interrompidos por golpes militares, após a ex-premiê sofrer acusações de corrupção e abuso de poder.
Antes de regressar ao Paquistão, em outubro, Bhutto passou oito anos no exílio, em Londres. O atentado dessa quinta-feira foi o segundo contra Bhutto em três meses. No dia 19 de outubro, um homem-bomba matou cerca de 150 pessoas em Karachi, no dia em que Bhutto voltou ao país.
Eleições - Apesar do assassinato de Bhutto, o governo paquistanês decidiu, ontem, manter o calendário das eleições parlamentares, após reunião urgente presidida pelo primeiro-ministro interino Mohammamian Soomro.
''O governo usará todos os meios para acabar com essa conspiração contra o Paquistão'', disse Soomro em discurso à nação. O primeiro-ministro pediu aos paquistaneses que mantenham a calma. Para ele, a instabilidade poderia dificultar a investigação e beneficiar os responsáveis pelo ataque.
A declaração é uma tentativa de evitar o aprofundamento de uma crise política no país, detentor de armas nucleares.
O também ex-premiê e líder oposicionista Nawaz Sharif afirmou, no entanto, que seu partido irá boicotar as eleições. Segundo ele, se o governo insistir em manter o pleito, o ''país vai se destroçar''.
Sharif reiterou que exige a renúncia imediata do ditador paquistanês Pervez Musharraf. Para ele, o assassinato de Bhutto é ''prova'' de que as eleições não serão conduzidas de forma transparente.

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