Barcelona - Milhares de catalães contrários à declaração de independência na Catalunha foram às ruas neste domingo (29) em Barcelona, revelando as divisões na região, cujo controle disputam o governo espanhol e o destituído executivo separatista.

Sob o lema "Somos todos Catalunha" e um mar de bandeiras espanholas e catalãs, uma multidão invadiu o Passeio de Gracia na capital catalã: 300 mil, segundo a polícia local, 1 milhão de acordo com a delegação do governo espanhol e 1,1 milhão para os organizadores. Apoiada pelos principais partidos não separatistas, a manifestação foi organizada pela associação anti-independência Sociedade Civil Catalã (SCC), que já tinha organizado uma manifestação multitudinária depois do referendo inconstitucional sobre a secessão, em 1º de outubro.

O conflito entre o governo separatista da Catalunha e o executivo central de Mariano Rajoy alcançou seu ponto alto na sexta-feira: o movimento de independência proclamou uma República, enquanto Madri respondeu destituindo o governo regional e assumindo o controle de sua administração.
Considerada uma ofensa pelos separatistas, a intervenção de Madri é recebida com certo alívio por cerca de metade dos 7,5 milhões de habitantes desta região que, após anos eclipsados pelas mobilizações separatistas, aumentaram seus protestos.

'UM MOMENTO DRAMÁTICO'

"Foi uma loucura que nos levou ao precipício", repudiou Á1lex Ramos, vice-presidente da SCC, em referência à declaração de independência não reconhecida por qualquer país. "É um momento dramático na história da Espanha, um momento extremamente difícil e perigoso", advertiu o ex-presidente do Parlamento europeu, o catalão Josep Borrell, pedindo aos manifestantes "serenidade" para "seguir vivendo juntos".

Nesta região com idioma próprio, mas com muitos habitantes procedentes do restante da Espanha, a sociedade está dividida em partes iguais sobre a secessão. E agora vive realidades paralelas: uns apoiam a declaração da república, outros respiram aliviados após a intervenção do governo espanhol, a quem pedem mais rigor. "Não posso sair com a bandeira espanhola na minha cidade", lamentava Marina Fernández, uma estudante de 19 anos de Gerona, uma das cidades mais pró-independência da região.

"Puigdemont para a prisão! Puigdemont para a prisão!", repetiram os manifestantes na marcha em alusão ao presidente regional Carles Puigdemont, destituído na sexta-feira por Mariano Rajoy. Os separatistas "vivem em um mundo paralelo, surrealista. Tenho raiva quando falam em nome de todos os catalães", indignava-se Silvia Alarcón, de 35 anos. "É ilegal o que eles fizeram", disse Miguel Ángel García, um aposentado de 70 anos. "Se Madri não assumir suas responsabilidades, me sentirei completamente enganado".

Mas em um terraço do bairro histórico de Barcelona, a separatista Marta Gimeno opinava diferente. "Para mim, Puigdemont é o nosso presidente, claro", disse uma ilustradora de 45 anos. "A declaração de independência nos serve, é válida, não é simbólica", afirmou.
Pelo segundo dia consecutivo, a região acordou sem saber quem controla sua administração. Nos edifícios públicos, a bandeira espanhola continua tremulando.

Oficialmente, o governo liderado por Carles Puigdemont foi destituído e suas funções foram assumidas pela vice-presidente espanhola Soraya Sáenz de Santamaría. O Parlamento regional também está dissolvido até as eleições convocadas por Rajoy para 21 de dezembro. Cerca de 150 autoridades da administração catalã foram demitidas e a cúpula da polícia regional, os Mossos d'Esquadra, afastada por ordens do Ministério do Interior.

Mas os líderes separatistas não reconheceram sua destituição. Em uma carta publicada no jornal El Punt-Avui, Oriol Junqueras, vice-presidente do Executivo regional, assegurou que "o presidente do país é e continuará sendo Carles Puigdemont". "Não podemos reconhecer o golpe de Estado contra a Catalunha nem qualquer das decisões antidemocráticas que o Partido Popular [de Rajoy] está adotando por controle remoto de Madri", acrescentou.

Puigdemont foi menos explícito. Em uma mensagem televisionada no sábado, afirmou que "está claro que a melhor maneira de defender as conquistas obtidas até hoje é a oposição democrática à aplicação do artigo 155" da Constituição, usado pelo poder central para destituí-lo.

Uma data marcada importante no calendário é esta segunda-feira (30), quando os dirigentes destituídos ou os deputados do Parlamento dissolvido podem tentar voltar a seus postos de trabalho.

Também se espera que a procuradoria espanhola apresente queixa-crime contra Puigdemont por "rebelião" nos próximos dias, um crime que pode ser punido com até 30 anos de prisão.

DILEMA ELEITORAL
Apesar dos processos judiciais abertos contra ele, o governo espanhol entende que o líder separatista catalão poderia se apresentar para as eleições convocadas para dezembro. "Todos são chamados a participar, inclusive Puigdemont, que é convidado a se apresentar" como candidato, declarou o embaixador espanhol na França, Fernando Carderera.

Este anúncio feito por Rajoy na sexta-feira desconcertou os separatistas e gerou um dilema: participar e dar-lhes legitimidade ou boicotar e deixar o terreno livre aos partidos contrários à separação que estão ganhando terreno?

De acordo com uma pesquisa publicada neste domingo pelo jornal El Mundo, os partidos independentistas perderiam a maioria absoluta obtida em setembro de 2015, passando de 72 assentos para entre 61 e 65, de um total de 135.

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