Movidos por um claro desejo de mudança, milhões de mexicanos encerraram ontem pacificamente, pelo voto, a mais longa era de domínio de um país por um único partido político neste século. ‘‘Assistimos a uma rebelião desarmada’’, disse o cientista Lorenzo Meyer. De acordo com pesquisa feita por um dos principais jornais mexicanos na semana passada, mas não publicada em obediência à lei eleitoral, a apuração dos votos confirmaria a rejeição do Partido Revolucionário Institucional, o PRI, nas eleições nacionais para o Congresso.
O PRI, de acordo com a sondagem, não manteria o controle da Câmara de quinhentos deputados, onde hoje tem trezentas cadeiras. A pesquisa indicou também uma vitória arrasadora de Cuauhtémoc Cárdenas, o principal adversário do partido oficial, na disputa pela prefeitura da Cidade do México, em jogo pela primeira vez.
A não ser pelo atraso na abertura de algumas das seções eleitorais e por um incidente no estado sulino de Chiapas, a votação ocorreu numa clima de tranquilidade e existe confiança na legitimidade dos resultados.
As eleições realizadas ontem no México foram as primeiras organizadas sem o controle direto do governo ou da máquina do PRI, tendo sido consideradas por dezenas de grupos de observadores internacionais e organizações cívicas como as mais limpas já realizadas na história do país.
O mérito cabe, em parte, ao presidente Ernesto Zedillo Ponce de Leon. Líder acidental, que chegou ao poder no final de 1994, depois que o candidato do PRI, Luis Donaldo Colosio, foi assassinado durante um comício, Zedillo compreendeu que as crises política e econômica que herdou eram sintomas da exaustão do regime monolítico estabelecido pelo PRI. Por convicção ou pragmatismo, aceitou cumprir o papel de figura de transição e propôs as reformas do sistema eleitoral que deram credibilidade ao processo eleitoral no México.
As reformas mais importantes incluíram a eleição pelo voto direto do governador do Distrito Federal, o segundo posto mais importante do país, que era antes nomeado pelo presidente; a abertura do acesso dos partidos da oposição aos meios de comunicação; o financiamento público da campanha eleitoral e várias medidas que garantiram a autonomia do Instituto Federal Eleitoral (IFE), órgão criado em 1990 para organizar e fiscalizar eleições mas que dependia, até o ano passado, dos desígnios do palácio presidencial de Los Pinos.
Dirigido por nove conselheiros não-partidários eleitos pelo Congresso por sete anos, o IFE tem hoje o respeito de grupos não-governamentais, como a Ação Cívica, que surgiram nos últimos anos no México para exigir a democratização da vida do país.
A legalização das pesquisas de boca de urna e a introdução de um sistema de contagem rápida de votos tornaram praticamente impossível o roubo eleitoral depois da votação, como ocorreu nas eleições presidenciais de 1988, ganhas pelo candidato do PRI, Carlos Salinas de Gortari, contra Cárdenas, depois de uma pane no sistema computadorizado de tabulação dos votos.
A montagem do sistema e a impressão e distribuição dos materiais usados nas eleições de ontem, que incluíram quatro cédulas diferentes na Cidade do México e nos seis estados que elegeram governadores, custaram aproximadamente US$ 300 milhões. O IFE distribuiu outros US$ 300 milhões em fundos públicos aos nove partidos políticos que disputaram o pleito.

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