No inverno mexicano, o dia da chegada do Papa foi abençoado com muito sol e céu azul. Desde cedo, ontem, milhares de pessoas ocuparam os quase 15 quilômetros do trajeto do papamóvel entre o Aeroporto Benito Juarez e a Nunciatura Apostólica, buscando o melhor lugar para saudá-lo.
Às 15 horas, novo gesto de carinho: milhões de pessoas saíram às ruas ou subiram aos telhados das casas, em todo Vale do México, acenando lenços para o avião da Alitália que trazia o Papa, ou brandindo espelhos para refletir o sol, ‘‘a luz do México’’, num espetáculo belo e fugaz.
Durante a espera, as emissoras de rádio e TV estimularam a religiosidade do povo, reprisando a todo momento uma versão da canção ‘‘Amigo’’, de Roberto Carlos, o hino oficial da primeira visita do Santo Padre, há 20 anos. Mais decibéis aderiram à festa quando todos os sinos da cidade badalaram ao mesmo tempo.
Na Calçada de Guadalupe, por onde o Papa passará hoje, em direção à Basílica da Virgem de Guadalupe, muita gente já se aglomerava no local, disposta a passar a noite esperando por ele. Os lugares lá dentro estão esgotados.
A grande avenida da fé recebeu uma maquiagem oficial. Os mendigos e ambulantes que são presença constante no lugar foram removidos. Um destacamento de 800 policiais vigia a área, garantindo que eles não retornem durante as cerimônias da visita. As ruas, geralmente sujas, foram varridas, pintadas e até arborizadas para a ocasião.
Nesse cenário, um grupo de mariachis animava a multidão, improvisando músicas com o nome de João Paulo II.
No ar, aquela sensação de que ‘‘el Papa’’ poderia fazer milagres: ‘‘Eu quero que ele me ajude a conseguir um emprego’’, pedia Leonardo Montagna. ‘‘Que salve minha filha das drogas’’, rogava uma mãe, envolta numa manta negra, ajoelhada na calçada.
Muitos fiéis não pediam nada. Pareciam genuinamente satisfeitos apenas com a visita do Papa. Num gesto característico, ele afagou o ego nacional ao anunciar que sua visita seria ‘‘uma peregrinação aos pés da Virgem de Guadalupe’’, de quem sempre se disse devoto - ela teria aparecido em 1531, para um índio asteca, assim espalhando a fé cristã nas terras recém-conquistadas.
João Paulo II não precisava exaltar ‘‘La Guadalupana’’, porque tem lugar especial na devoção dos mexicanos por ser o primeiro papa a visitar o País logo na primeira viagem depois da posse.
Nessa sua quarta visita, o Papa desembarcou no horário previsto, sendo recebido no aeroporto pelo presidente Ernesto Zedillo e pela alta cúpula da Igreja Católica.
No discurso pronunciado ao desembarcar, o Papa João Paulo II desejou ‘‘sucesso aos mexicanos na busca da concórdia’’ e enumerou as realidades superpostas mexicanas das antigas culturas indígenas, do cristianismo e do moderno racionalismo europeu.
Na chegada, já teve de operar seus conhecidos poderes de conciliação política - depois da cerimônia, seu primeiro compromisso foi visitar o prefeito Cuautemoc Cardenas, adversário de Zedillo nas últimas e nas próximas eleições.
De Cardenas, o Papa recebeu a chave da cidade, uma peça de prata banhada em ouro. Antes dessa parte, entretanto, o presidente Zedillo retirou-se para o Palácio de Los Pinos, evitando constrangimentos.

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