Marinha dos EUA é acusada em Porto Rico
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de março de 2001
Ian James Associated Press De Vieques, Porto Rico 
Durante seis décadas, bombas e disparos de artilharia explodiram aos montes nos campos de treinamento da Marinha dos Estados Unidos na pequena ilha porto-riquenha de Vieques, enviando ao céu nuvens de fumaça enquanto o vento se encarregava de levar a poeira pelo ar até as cidades mais próximas. Ano após ano, as pessoas nadavam mais e mais nas praias da ilha, acampavam em locais empoeirados e comiam frutos do mar e vegetais. Mas estudos recentes promovidos por pesquisadores de Porto Rico detectaram níveis tóxicos de metais pesados em caranguejos, plantas comestíveis e no cabelo humano. As descobertas estão acirrando ainda mais a intensa oposição dos porto-riquenhos aos exercícios navais da Marinha neste território norte-americano.
A Marinha contesta as conclusões dos especialistas. Mas a Agência de Proteção Ambiental (APA) dos EUA alertou anteriormente sobre o fato de os índices de contaminação serem maiores que o permitido nas águas em volta da ilha, apesar de alegar não ter encontrado sinais de risco iminente aos moradores de Vieques.
Mesmo sem nenhum estudo médico tendo sido realizado, muitos ilhéus dizem acreditar que os poluentes liberados durante os exercícios militares envenenaram suas terras e seus corpos. Muitas pessoas em Vieques, onde a pesca é a maior indústria, ao lado do turismo, temem agora comer os peixes e vegetais colhidos na ilha.
Cerca de 3.600 dos 9.400 moradores da ilha aderiram a uma ação judicial conjunta na busca de compensação por doenças que, de acordo com eles, foram causadas pelos exercícios militares.
A Marinha sustenta que seus próprios estudos não detectaram perigos e classifica como não científicos e falhos os estudos que sugerem o contrário.
Documentos obtidos pela Associated Press mostram que a Marinha violou durante anos uma permissão da Agência de Proteção Ambiental segundo a qual poderia descarregar níveis limitados de poluentes no mar. Os documentos indicam a contaminação por metais pesados ultrapassaram mais de uma vez os padrões de qualidade da água quando as munições caíam no mar.
Chumbo, que também pode causar alguns problemas de saúde, foi detectado nas águas em níveis 25 vezes superiores aos permitidos. Em 1997, chegou a haver uma concentração 105 vezes maior à permitida de chumbo na região. A Marinha tem de coletar amostras de água pelo menos duas vezes por mês quando os armamentos caem no mar e divulgar informes periódicos. Como de hábito, os informes sempre trazem alguma irregularidade, afirma Murray Lantner, engenheiro ambiental da APA.


