Porto Príncipe - Pedras, pneus queimando e barricadas feitas com pedaços de carros, pedras e madeira estão espalhadas pela capital do Haiti. Agências bancárias foram apedrejados e o comércio está fechado. ''É normal essa manifestação, pois o povo não pode viver dessa forma. Para o povo o governo não existe'', desabafa o haitiano Pierre Andregene, 57, intérprete do batalhão brasileiro. Segundo ele, as lideranças estão mobilizando a população para uma manifestação ainda maior e mais violenta daqui quatro dias.
Os manifestantes atiram pedras nos militares da forças de paz. O transporte dos jornalistas brasileiros, que estão acompanhando uma comitiva com oficiais generais do Exército, é realizado somente em blindados (Urutus). Ontem no percurso de volta do Palácio Nacional o veículo foi atingido por pedras diversas vezes, tendo que vencer barreiras de fogo, pedras e partes de carros. Anteontem, um fuzileiro naval brasileiro foi atingido por uma pedra. Desde o início das manifestações no Haiti dez civis morreram, informações de fontes não oficiais.
Combustível e alimentos têm subido em média 50% por semana, segundo fontes não oficiais. A população reclama já que donos de postos alegam desabastecimento para justificar os aumentos. Para provar que há combustível nos postos, manifestantes tentaram queimar uma bomba de gasolina no bairro de Canape Vert, na região oeste de Porto Príncipe, próximo da residência do presidente René Preval.
Os preços alcançam um patamar irreal, cinco quilos de feijão estão custando 200 Gourdes (12 reais), um galão de óleo com 3,5 litros é vendido a 350 Gourdes (18 reais), um galão de gasolina não sai por menos de 250 Gourdes (15 reais).
O Haiti é o pais mais pobre das Américas, tem em média 80% de desempregados e mais de 50% da população é analfabeta. Populares entrevistados pelas rádios locais são favoráveis à continuidade dos protestos. A falta de iniciativa do presidente haitiano revolta a população. Na tentativa de amenizar a situação, o governo brasileiro anunciou a envio de 14 toneladas de alimentos até sexta-feira.
Ontem, no começo da tarde, o presidente fez um pronunciamento no qual alegou que o aumento no preço dos alimentos é um fenômeno internacional. Propôs que empregados do Estado como a Polícia Nacional do Haiti (PNH), e os demais funcionários públicos, retirem 10% do salário em sinal de solidariedade aos mais necessitados. Pediu também aos deputados e senadores a parar de viajar sem necessidades. Na tentativa de amenizar a situação, o governo brasileiro anunciou a envio de 14 toneladas de alimentos até sexta-feira.
As tropas de paz brasileiras continuam mobilizadas. Mantêm um perímetro de segurança de 200 metros do Palácio Nacional, garantindo a segurança da população e tentando debelar manifestações através de patrulhas ostensivas para restabelecer a ordem. O trabalho dos militares é intenso e não há previsão para a situação se normalizar. ''A nossa resistência em trabalhar intensamente é muito grande'', garante o coronel Paul Cruz.

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