Viena - Com um cartaz nas mãos, um biquíni minúsculo e adornada com lantejoulas no corpo esguio, a rainha do Carnaval de Gualeguaychú, na divisa entre a Argentina e o Uruguai, causou estardalhaço no momento em que os sisudos chefes de Estado dos países da União Européia e da América Latina posavam para a foto oficial do encontro, ontem em Viena.
Provocando sorrisos, expressões de surpresa e (poucos) gestos de contrariedade dos líderes, a performance da argentina Evangelina Carrozo serviu ao objetivo do Greenpeace de despertar a atenção do mundo para o conflito entre Argentina e Uruguai em torno da instalação de duas empresas de papel e de celulose no lado uruguaio da fronteira.
Entretanto, o cartaz que dizia ''basta de papeleiras poluidoras'', em espanhol e inglês, foi o que menos atraiu os olhares. Interessado a princípio na cartolina, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva imediatamente desviou os olhos atentos para a beldade. Néstor Kirchner fez um gesto de perplexidade com os braços, mas abriu um sorriso de satisfação ao observar o desfile da conterrânea.
Os primeiros-ministros José Luis Zapatero, da Espanha, e Tony Blair, da Grã-Bretanha, se derreteram. Mesmo Tabaré Vazquez, presidente do Uruguai, rendeu-se, bem humorado, e riu do protesto da Rainha do Carnaval contra a fábrica de celulose que ele luta para implantar. Pouco antes, ao entrar na sala onde posaria para a foto, Vázquez não havia nem mesmo cumprimentado seu vizinho Kirchner. Mas a explosão de regozijo veio do solteirão Hugo Chávez, presidente da Venezuela, que está separado há anos. ''Não pude ver nada de protesto contra papeleiras. Só vi a moça, elegante e bela como a América do Sul'', disse. ''É uma das melhores coisas desta reunião de cúpula. Eu até joguei um beijo para ela.''
O Greenpeace preparou cuidadosamente o protesto. Pouco antes da chegada dos presidentes, Evangelina Carrozo misturou-se a fotógrafos e cinegrafistas como se fosse uma repórter, discretamente vestida com um casaco. Assim que os líderes tomaram seus lugares, despiu o sobretudo e desfilou com seu cartaz, seu biquíni e suas botas até os joelhos. Imediatamente, um segurança austríaco a enlaçou pela cintura e a levou para fora.
A chamada ''guerra das papeleiras'' começou há de um ano, quando as empresas do setor de papel e celulose Botnia, da Finlândia, e a Ence, da Espanha, iniciaram a construção de suas indústrias na região de Fray Bentos, no Uruguai. O investimento supera US$ 1,7 bilhão. As obras, entretanto, provocaram o protesto inflamado dos moradores de Gualehuaychú, cidade do lado argentino. Eles argumentam que as fábricas irão poluir o Rio Uruguai e já trazem prejuízo ao setor de turismo.
A briga foi parar nas Nações Unidas na forma de uma queixa da Argentina à Corte Internacional de Haia, na Holanda. Embora sócio dos dois países no Mercosul, que ainda não definiu um acordo sobre regras de investimento, o Brasil considerou a disputa como uma contenda bilateral e decidiu não se envolver publicamente. ''O Brasil sempre está pronto para ajudar'', limitou-se a declarar ontem o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim.

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