Se o Congresso dos EUA decidir abrir um processo de impeachment contra o presidente Bill Clinton, se a opinião pública se irar contra ele, se a Hillary pedir o divórcio - restará ao líder americano um consolo: a comunidade mangueirense está com ele e não abre.
Adotado como um filho sardento e distante pela favela da Mangueira desde a histórica visita de exatamente um ano atrás, Clinton já deve ter recebido a carta de apoio mandada na semana passada pelo coordenador da Vila Olímpica da Mangueira, Francisco de Carvalho, o Chiquinho, e pelo presidente da escola de samba, Elmo José dos Santos. ‘‘Virei fã do Clinton e tive a idéia de mandar a carta para mostrar que nós continuamos acreditando nele’’, contou Chiquinho. No texto, eles dizem ao presidente americano que sua vida particular nada tem a ver com a competência como político e administrador e garantem que nada do que aconteceu irá abalar o carinho dos mangueirenses.
‘‘Ele foi muito gentil quando esteve aqui, quebrou os protocolos, deixou de lado a segurança’’, lembrou o coordenador da Vila Olímpica, o projeto social que atende a quatro mil crianças da favela em atividades esportivas, culturais e profissionalizantes. De material, o saldo da visita do presidente ao local - que durou duas horas, em vez dos 40 minutos inicialmente programados - foi a doação, pelo consulado dos EUA no Rio, de 20 computadores. Mas, em termos de marketing, o retorno foi inigualável: 126 canais de TV no mundo inteiro transmitiram imagens de Clinton distribuindo beijos nas bochechas das jovens ginastas e sambistas da Mangueira. ‘‘O que valeu para nós foi o reconhecimento do governo americano de que está no Brasil e na Mangueira o melhor projeto social do mundo’’, comemorou Chiquinho.
Mesmo entre as senhoras da velha guarda da escola, Clinton continua gozando de alta popularidade. ‘‘Ele é homem, né?’’, justificou Dona Zica, a viúva do compositor Cartola. ‘‘Porca é a Monica (Lewinsky), que nem botou um vestido sujo para lavar’’. Em defesa do presidente, ela não hesita em classificar a ex-estagiária da Casa Branca de ‘‘safadona’’. Dona Neuma, outra representante da ala histórica da escola, também não perdoa a moça. ‘‘Ela é uma mulher baixa, que só quer dinheiro’’, vociferou.
Apoio negro Quando o presidente Bill Clinton viaja pelo país hoje em dia, são os brancos que se perfilam no caminho com cartazes hostis exigindo que ele renuncie. Os afro-americanos o recebem de braços abertos em suas igrejas. Muitos antigos aliados estão mantendo distância do líder maculado, mas os negros mantêm-se ao lado do homem visto como um dos melhores amigos que eles já tiveram na Casa Branca. Pesquisas de opinião mostram que 90% dos negros americanos aprovam o desempenho de Clinton como presidente, contra entre 50% a 65% dos brancos.

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