O Senado dos Estados Unido absolveu ontem o presidente Bill Clinton das acusações de perjúrio e obstrução da justiça, faltas que cometeu para esconder seu relacionamento sexual com a ex-estagiária Monica Lewinksy.
O veredito, que já era esperado, encerrou cinco semanas de um impopular julgamento de impeachment que a maioria esmagadora dos americanos considerava desnecessário e colocou um ponto final num escândalo que consumiu boa parte das energias políticas dos EUA durante mais de um ano.
Tendo acionado a arma nuclear do processo legislativo para tentar tirar Clinton da Casa Branca, contra a vontade manifesta da população, os líderes republicanos tiveram, na votação, a confirmação final de que o tiro saiu pela culatra.
Contados os votos, que foram pronunciados publicamente por cada um dos senadores, depois de três dias de deliberações a portas fechadas, os republicanos não conseguiram sequer uma maioria simples para assegurar uma condenação simbólica do presidente.
Dez dos 55 membros de sua bancada juntaram-se aos 45 senadores democratas para absolver Clinton da acusação de perjúrio - rejeitada por 55 votos a 45. Na acusação de obstrução de justiça houve empate de 50 a 50 votos. Para condenar e remover o presidente do poder, eram necessários pelo menos 67 votos, ou dois terços do total. O presidente estava na ala residencial da Casa Branca e, segundo seus assessores, não acompanhou a votação.
Pouco depois de anunciar o resultado da segunda votação, o juiz-chefe da Suprema Corte, William Rehnquist, fez uma brevíssima declaração na qual começou a consertar os danos que, segundo os praticante e os estudiosos da política, o segundo processo de impeachment de um presidente da história dos EUA pode ter causado ao país.
‘‘Deixo o Senado mais sábio mas não mais triste’’, disse o chefe do poder judiciário, depois de elogiar a dignidade com que os senadores dos dois partidos se comportaram durante as sessões públicas e secretas do julgamento.
Pouco depois, ele bateu o martelo de madeira na mesa e encerrou a maior crise constitucional dos EUA em décadas e um dos mais lamentáveis episódios da história política do país.
Os treze deputados republicanos que serviram de promotores do impeachment deixaram o plenário do Senado em seguida, cumprimentando senadores dos dois partidos. ‘‘Não tenho nada a lamentar’’, disse Henry Hyde, o presidente da Comissão de Justiça da Câmara, que comandou os acusadores do presidente.
Hyde rejeitou a noção de que o processo e o julgamento do impeachment, que envenenaram a atmosfera política em Washington durante meses, tenham manchado a reputação da Câmara dos Representantes, que aprovou os dois artigos de impeachment contra Clinton, no dia 18 de dezembro passado, num voto partidário. ‘‘Todos os americanos podem ficar tranquilos’’, disse o deputado. ‘‘O Congresso fortaleceu os laços que unem a nação’’.
Encerrado o julgamento, a senadora democrata Dianne Feinstein , da Califórnia, tentou forçar a votação de uma recomendação de censura do presidente pelo comportamento ‘‘vergonhoso, temerário e indefensável’’ no affair Lewinsky. Mas a manobra foi rapidamente rejeitada por republicanos e democratas e parece ter frustrado o projeto que uma minoria de senadores dos dois partidos tinha de deixar registrado numa resolução específica seu repúdio ao comportamento pessoal de Clinton.
Mas a condenação moral do presidente ficou clara nos discursos de quinze minutos que cada um dos cem senadores fizeram nos três dias de deliberações secretas que antecederam a votação de ontem e em suas declarações depois do julgamento.
A senadora Susan Collins, do Maine, uma das republicanas que votou para absolver Clinton das duas acusações, deixou claro sua rejeição à conduta do presidente. ‘‘Embora isso possa não ser um crime, o fato é que ele explorou uma jovem e deslumbrada funcionária do governo e depois a difamou numa tentativa de destruir sua credibilidade, sua reputação e sua vida’’, disse a senadora.

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