Macri abandona tom conciliador em discurso ao Congresso
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quarta-feira, 01 de março de 2017
Sylvia Colombo Folhapress 
Montevidéu, Uruguai - Com um discurso vigoroso, em que falou por quase uma hora em um tom de voz acima do normal, o presidente argentino, Mauricio Macri, abriu nesta quarta-feira (1º) as atividades do Congresso nacional colocando ênfase na agenda social, no que considera melhoras na economia e em anúncios de medidas anticorrupção.
Em vez do tom conciliador do ano passado, optou por uma fala altissonante, que logo irritou a bancada kirchnerista, que trazia cartazes com mensagens contra os ajustes e os aumentos de tarifas dos últimos meses, mencionando o escândalo dos Correios e fotos pedindo a liberdade da adversária política Milagro Sala, condenada pela Justiça de Jujuy.
"A Argentina está se colocando de pé", afirmou, sob aplausos dos apoiadores, "apesar daqueles que torcem para que não dê certo e colocam obstáculos a nossos projetos", sob ruídos de protestos dos oposicionistas.
Na primeira parte do discurso, enumerou as ações de combate à pobreza - que afeta hoje 1 de cada 3 argentinos - dando detalhes sobre a expansão do sistema de esgoto, e de obras que "pareciam óbvias, mas que não se fizeram, como permitir que quando um argentino abra a torneira saia água limpa".
Cada vez que terminava uma sentença com alguma expressão de efeito, os kirchneristas levantavam seus cartazes, retrucando que seus números não eram verdadeiros. Enquanto isso, a bancada macrista tentava calar a oposição com aplausos.
Macri também deu um espaço maior nesta ocasião em relação a 2015 para falar de uma "revolução educativa" e de medidas contra a "violência machista", numa clara resposta a reivindicações de grupos feministas e de organizações sindicais de professores, que estão em conflito com o governo e ameaçam atrasar o início do calendário escolar. Chegou a mencionar o "Ni Una Menos", grupo que se formou no ano passado e já levou centenas às ruas para pedir medidas contra a violência contra a mulher.
ECONOMIA
Com relação à economia, assegurou que a inflação vem num "claro caminho descendente", apesar de as cifras ainda registrarem 40% ao ano - 15% mais do que nos tempos do kirchnerismo. Macri afirmou que, até o fim de 2017, esse índice se reduzirá a "12% a 17%".
Foi nesse momento em que seu "ataque" contra a gestão Cristina Kirchner (2007-2015) foi mais contundente. O presidente disse que sua antecessora no cargo "deu as costas a essa realidade" e menosprezou a importância da inflação no crescimento do país. E afirmou que as estratégias graduais de ajuste e de corte de subsídios vêm colocando a economia no rumo que ele espera, assegurando um crescimento do PIB neste ano depois de dois de estagnação e um de crescimento negativo - a expectativa do governo é que o país cresça 3% em 2017.
CORRUPÇÃO
No item corrupção, Macri fez uma espécie de "mea culpa" com relação ao assunto dos Correios, que vem danificando sua aprovação popular. "Pedi à Oficina Anticorrupção que crie um mecanismo para separar minha atuação ante qualquer suspeita de um potencial conflito de interesses", disse. Anunciou ainda que serão publicados "dois decretos sobre julgamentos e contratações para prevenção de conflitos de interesses" de membros de seu governo.
No mês passado, a Procuradoria da Argentina denunciou Macri por ter supostamente reduzido a dívida de uma empresa da família dele com o Estado. A dívida era do Grupo Socma, presidido por Franco Macri, pai do presidente, devido à quebra do Correio Argentino quando a estatal era privada.
A família Macri administrou o serviço dos correios entre 1997 e 2003, no contexto de privatizações do governo de Carlos Menem (1989-1999). A empresa quebrou em 2001, deixando dívidas com os setores público e privado. Em 2003, no governo de Néstor Kirchner (2003-2007), o Correio foi novamente estatizado.


