Lula evita falar de crise e corrupção
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quarta-feira, 13 de julho de 2005
Reali Júnior<br>Agência Estado 
Paris - O presidente Luiz Inácio da Silva dormiu reconfortado ontem, em Paris, após ter sido aplaudido por uma multidão de 50 mil pessoas, reunidas na Praça da Bastilha, quando foi chamado ao palco pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil, responsável pela animação do show, um dos pontos altos do Ano do Brasil na França. Lula chegou pela manhã ao país, com ar, visivelmente, cansado, reclamado de que não havia dormido no Airbus que o transportou do Brasil, tendo cumprido um extenso programa de encontros e discursos.
Emocionado com a manifestação do público na Bastilha, ele decidiu romper o protocolo, que não previa declarações, dirigindo-se à multidão, no local mais simbólico da revolução francesa. ''O Brasil é grande não por suas dimensões, mas sim pela grandeza de seu povo'', afirmou, reencontrando o clima político favorável de outros tempos, onde muitos dos espectadores franceses insistiam no coro: '' Lula! Lula! Lula !''
Durante o dia, Lula preferiu falar de democracia, luta contra a fome, fim do protecionismo e comércio exterior no primeiro dia de sua visita a Paris, onde evitou qualquer pergunta sobre os escândalos de corrupção que fragilizam seu governo.
Entre discursos, recepções, encontros oficiais, inaugurações de exposições e outros atos de sua apertada agenda na capital francesa, o presidente brasileiro não quis pronunciar uma palavra sobre política interna, inclusive, esquivando-se da imprensa.
Lula quis aparecer na França com a imagem a que tinha acostumado o mundo inteiro: um político honesto, simples e popular, comprometido com a construção de um mundo mais justo e inflexível ante as práticas que aumentam as diferenças entre Norte e Sul.
O presidente quis 'deixar' no Brasil as acusações de corrupção em seu governo, que o obrigaram a realizar drásticas mudanças no Executivo e a aceitar o afastamento de alguns de seus maiores colaboradores que o acompanham há décadas como José Dirceu ou José Genoino.
Na Unesco, no Fórum franco-brasileiro da sociedade civil ou na poderosa patronal francesa (Medef), Lula foi recebido com aplausos e saudações, o que mostra que apesar das turbulências políticas, sua reputação, dentro e fora do Brasil, se mantém intacta.
O presidente começou sua jornada na famosa Universidade Sorbonne, onde diante de cerca de 300 estudantes e acadêmicos falou da luta contra a pobreza e em prol da democracia.
O presidente criticou com veemência o protecionismo comercial dos países ricos, a começar pela França, principal beneficiada pela política agrícola européia que impõe severas barreiras aos produtos de países em desenvolvimento. ''A cada dia são gastos 1 bilhão de dólares em subsídios e isso é intolerável'', assegurou Lula.
Na frente de estudantes e empresários, Lula explicou com detalhes a política externa brasileira e os avanços de sua economia. O presidente brasileiro defendeu o multilateralismo e a necessidade de se aumentar a ajuda aos países mais pobres, sobretudo ao continente africano, mesmo tendo assegurado que as promessas dos países industrializados raramente são cumpridas.
Para evitar especulações, o presidente se empenhou inclusive em explicar seus gestos que aparentam abatimento, que segundo ele não se deviam às preocupações e sim ao seu medo de avião. ''Por mais que viaje não perco o medo de avião e não consigo dormir'', explicou.
Lula limitou ao máximo o contato com a imprensa e não respondeu a nenhuma pergunta relacionada à corrupção em seu governo.
No entanto, a delicada situação no Brasil mereceu atenção especial da imprensa francesa ontem. ''A experiência Lula no Brasil, afetada por casos de corrupção'', foi o título da reportagem do jornal Le Monde. (Colaborou Beatriz Lecumberri/France Presse)


