Londrinense presencia cena de desespero
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quinta-feira, 11 de março de 2004
Silvana Leão<br>Reportagem Local 
Até ontem à tarde a embaixada brasileira em Madri não tinha informações sobre brasileiros envolvidos nas explosões de trens, mas pelo menos um londrinense presenciou o atentado na estação de Atocha, no centro da capital. O engenheiro de produção Henrique Bruno Schmitt, 27 anos, que faz doutorado na Espanha, chegou ao local pouco antes das 7h30, horário em que aconteceram as explosões. Ele integra um grupo de alunos latino-americanos que estudam em Madrid como bolsistas do governo espanhol e ontem de manhã iriam visitar um centro de formação de adultos na região metropolitana da capital.
Por e-mail, Henrique contou aos pais, Sérgio Henrique Schmitt, assessor de imprensa do escritório regional da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater) em Londrina, e Lucy Woellner, doutora em planejamento do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), que quando faltavam apenas alguns companheiros para chegar ao ponto de encontro, escutaram um ruído seco, forte, acompanhado de um tremor na estrutura da estação.
''A primeira impressão é que algum trem não havia podido frear a tempo e que tinha impactado contra a estação. Começou uma gritaria (entre os que se desesperavam e os que corriam para ver o que tinha acontecido) e uma sensação horrível de não saber o que fazer. Fomos até o lugar de onde veio o ruído e encontramos dois vagões de trens de cercania (que faz justamente a rota entre as cidades satélite) completamente destruídos.''
Henrique relatou ainda que o lugar estava com um forte cheiro de borracha queimada, muitos vidros quebrados e alumínios espalhados pelos trilhos. ''O pior de tudo era a quantidade de gente presa (entre vivas e mortas) dentro do que sobrou dos vagões'', detalhou o engenheiro.
Henrique afirma que a cidade já estava há cerca de um mês em estado de alerta. ''Hoje porém se materializou algo que ninguém em realidade acreditou que poderíamos viver... um atentado onde o alvo foi a população civil, sendo que um grande número de pessoas perdeu a vida da forma mais covarde e injustificada, pensando que em realidade, estavam começando mais um dia de trabalho nesta linda (e hoje triste) cidade de Madri.''
O pai de Henrique ficou sabendo do atentado por volta das 7h30 da manhã de ontem, assim que ligou a TV. ''Fiquei muito apreensivo e liguei pra ele no celular, imediatamente. Ele ainda estava no local, com os amigos, chocados com o que viram. O que senti naquele momento foi um misto de choque e alívio, quando soube que ele estava bem, pois conheço o local e sei que por ali passam milhares de pessoas'', afirmou o jornalista. Sérgio contou que anteontem, durante uma novena da qual participa, sentiu que precisava reforçar suas orações e pediu muito pelo bem-estar dos filhos. ''Não sei se foi um presentimento.''
Outro londrinense que se encontra em Madri e relatou à reportagem o clima de tensão que envolvia Madri ontem é João Paulo Casarim Junior, ex-funcionário da Folha. Atualmente João Paulo trabalha em uma distribuidora de jornal e em uma indústria de produtos químicos. ''Eu estava saindo para trabalhar quando fiquei sabendo da bomba na estação central. Estamos todos apavorados, porque até então os atentados eram de menor proporção e cometidos contra pessoas específicas. Desta vez não, foi para atingir um número muito grande de civis inocentes'', comentou.
João Paulo calcula que cerca de 15 mil pessoas passam diariamente pela estação de Atocha. ''No momento em que as bombas foram detonadas o fluxo de pessoas que estão indo estudar ou trabalhar é muito grande. Havia muitos jovens entre as vítimas. As imagens que vimos hoje o dia todo pela TV são assustadoras.'' Preocupado, João Paulo pretende voltar a Londrina onde estão a mulher e os filhos o mais rápido possível.


