Londres defende a invasão de Kosovo
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segunda-feira, 17 de maio de 1999
Associated Press 
Enquanto diplomatas e políticos europeus intensificavam esforços na busca de um acordo de paz para Kosovo, o chanceler britânico Robin Cook voltou a lançar nesta segunda-feira em Londres a idéia de uma invasão terrestre da província sérvia para garantir o retorno dos refugiados.
Não estamos na Macedônia apenas para fazer um passeio, advertiu Cook numa referência aos 12 mil soldados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estacionados naquele país. Nem precisamos de um prévio entendimento com Belgrado para enviar tropas a Kosovo, acrescentou.
Cook ressalvou, no entanto, que algumas condições precisam ser preenchidas no campo militar para a adoção da medida. Segundo ele, o Exército iugoslavo já não dispõe de meios para resistir e a aliança precisa tirar vantagens do momento.
Em Belgrado, o Exército iugoslavo reagiu à ameaça. Se isso ocorrer (a invasão), os soldados da Otan vão conhecer o inferno na terra, advertiu o general sérvio Neboja Pavkovic, comandante do 3º Exército da Iugoslávia. Se entrarem aqui devem saber que não vão sobreviver, o morticínio será espantoso.
France PresseSlobodan Milosevic diz que obstáculo à paz é a campanha de bombardeios da OtanCook lembrou que a decisão de usar forças terrestres compete ao secretário-geral da Otan, Javier Solana, com quem ele se reuniu ontem pela manhã. A declaração do chanceler britânico revela certo desacordo com os princípios defendidos pela Casa Branca.
O presidente Bill Clinton continua opondo-se a uma invasão por terra, embora, segundo a revista Newsweek, tenha sido alertado pelo Pentágono de que a guerra só será ganha com o uso de forças terrestres. O secretário da Defesa, William Cook, desmentiu a reportagem, mas o general da reserva Collin Powell - chefe do Estado-Maior dos Estados Unidos durante a Guerra do Golfo - fez duras críticas à estratégia da Otan e propôs ataques em todas as frentes.
Numa entrevista publicada ontem, Powell disse que a Otan jamais deveria ter descartado a ameaça de enviar tropas terrestres para proteger os albaneses do Kosovo e impedir que o presidente da Iugoslávia, Slodoban Milosevic, levasse a cabo seus planos de limpeza étnica. Depois de quase dois meses de bombardeios aéreos, disse o general, os Estados Unidos e seus 18 aliados não conseguiram quebrar a vontade política de Milosevic.
Tentando pôr um ponto final na questão, o porta-voz do Pentágono, Kenneth Bacon, assegurou que não houve alteração na estratégia da Otan. As tropas só vão entrar na Iugoslávia após a assinatura de um acordo que satisfaça amplamente as exigências da aliança.
Em Belgrado, o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, manifestou-se ontem disposto a aceitar um acordo desde que a Otan suspenda os bombardeios. A campanha de bombardeios é o único obstáculo à paz, disse ele ao fim de um encontro com políticos e militares e na esteira de um plano de paz que era apresentado pela Itália aos chanceleres da União Européia (UE) e à Rússia, em Bruxelas.
Roma propõe o fim do bombardeio antes da retirada do Exército iugoslavo de Kosovo. Os chanceleres, que se reuniram para um balanço das negociações diplomáticas, destacaram, no entanto, que a pressão militar deve continuar inalterada.
Manifestaram também apoio ao novo negociador da UE para o conflito, o presidente finlandês, Martti Ahtisaari, que anteontem recebeu, em Helsinque, o chanceler alemão, Gerhard Schroeder. Horas antes, Schroeder encontrara-se, em Bari, com o primeiro-ministro italiano, Massimo DAlema.
Do lado russo, o negociador Viktor Chernomyrdin conversou, em Madri, com o primeiro-ministro espanhol, José María Aznar. O negociador russo deveria entrevistar-se ainda ontem com Milosevic em Belgrado, onde também ontem desembarcou uma delegação humanitária da ONU, chefiada pelo brasileiro Sérgio Vieira de Mello. O brasileiro espera obter de Milosevic autorização para percorrer Kosovo.
Segundo observadores da Organização para Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), a artilharia sérvia continua em ação em Kosovo e a polícia interrompeu a marcha de cerca de 40 mil albaneses étnicos - incluindo um trem com 2 mil pessoas - em direção à Macedônia e à Albânia.
Na Albânia, autoridades locais classificaram de explosiva a situação no superlotado campo de Kukes (100 mil pessoas), perto da fronteira de Kosovo, onde os refugiados se recusam a aderir a planos da ONU de remoção para outras áreas.
No âmbito da Operação Força Aliada, os bombardeios sofreram ontem grande redução em consequência do mau tempo. Mesmo assim, as sirenes soaram várias vezes na capital iugoslava e em cidades como Novi Sad, Nis e Pristina. Dois civis teriam morrido e pelo menos seis sofrido ferimentos.


