Bauru - Durante o enfrentamento da pandemia, índices de aprovação de líderes estão relacionados à maneira como os governos respondem ao avanço do coronavírus - mas há exceções. De acordo com analistas, o presidente Jair Bolsonaro e o americano Donald Trump contrariam a tendência de aproximação das populações em momentos de crise.

Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia, recebeu reconhecimento internacional pelas ações contra o Covid-19
Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia, recebeu reconhecimento internacional pelas ações contra o Covid-19 | Foto: Mark Mitchell/AFP

"As pessoas acreditam que apoiar o líder do país em um determinado contexto é importante quando veem que o líder está reagindo de uma maneira que parece sensata e razoável", explica Fernando Bizzarro, pesquisador do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Harvard, no EUA.

O jornal inglês “Financial Times”, por exemplo, publicou nessa semana o editorial "A autodestruição do Trump tropical", com o subtítulo "Como Bolsonaro está montando a causa de seu próprio impeachment". De acordo com o jornal, "qualquer sentimento positivo se evaporou em meio a uma tríplice crise: um aprofundamento da emergência de saúde pública, uma profunda recessão econômica e calamidade política".

A comparação com o americano não é aleatória. Buscando alinhamento total aos EUA, Bolsonaro tenta, de acordo com Bizzarro, manter uma "posição antiestablishment" e consolidar sua "marca de diferente" ao rejeitar medidas de isolamento social como tentativa de conter o coronavírus.

Para a professora de relações internacionais da ESPM Carolina Pavese, os dois líderes têm perfis similares e "confundem assertividade com agressividade". "Vemos em ambos traços de personalidade que, em líderes políticos, são características perigosas e contrárias ao perfil ideal de um líder para lidar com essa crise."

Trump já começa a pagar o preço político de sua postura em relação à Covid-19. Segundo o Instituto Gallup, a aprovação de Trump foi de 49%, no meio de março, para 43% no meio de abril. Carlos Melo, cientista político e professor do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa), avalia que "recomendações esdrúxulas" de Trump, como a sugestão de injeções de desinfetante para combater a Covid-19, colocam em risco sua vitória nas urnas.

Entre os europeus, Pedro Sánchez, primeiro-ministro da Espanha, teve a maior queda de popularidade, de acordo com pesquisa do Gabinete de Estudos Sociais e de Opinião Pública. No final de março, 44% dos espanhóis aprovavam a gestão do premiê. Em abril, a cifra caiu para 30,3%.

A demora em decretar a paralisação das atividades é apontada como um dos motivos de a Espanha ser o segundo país em número de casos confirmados da Covid-19 - quase 240 mil até a tarde desta quinta-feira (30), de acordo com a universidade americana Johns Hopkins.

Para Pavese, os líderes mais bem-sucedidos frente à pandemia são aqueles que unem uma postura de empatia e acolhimento da população à demonstração de postura firme. São os casos de Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia, Angela Merkel, chanceler da Alemanha, Moon Jae-in, presidente da Coreia do Sul, e Alberto Fernández, presidente da Argentina.

Enquanto, segundo a professora, Bolsonaro e Trump parecem considerar a empatia como uma demonstração de fraqueza, Jacinda, Merkel e Emmanuel Macron, presidente da França, apresentam um discurso que reconhece a gravidade da crise. "É como se eles dissessem: a gente entende e partilha desse medo de vocês, mas vai fazer o possível para enfrentar isso juntos e vamos conseguir", ilustra. A lógica, de acordo com Pavese, é que esse posicionamento atraia o apoio a "medidas politicamente difíceis de implantar", como o lockdown.

Exemplo disso é a Nova Zelândia que, mesmo tendo imposto medidas mais restritivas de contenção, recebeu reconhecimento internacional. A revista americana “The Atlantic” se referiu à primeira-ministra neozelandesa como "a líder mais eficaz do planeta" e o “Financial Times” a chamou de "Santa Jacinda".

A postura de Merkel também lhe rendeu elogios. "É uma líder bastante durona, pouco deixa transparecer seus sentimentos, mas ela fez um pronunciamento belíssimo, cheio de sentimento e de coragem", avalia Melo. O cientista político se refere ao discurso em que a alemã comparou a pandemia à Segunda Guerra. "Desde a reunificação alemã, não, desde a Segunda Guerra Mundial, não houve um desafio para o nosso país que dependa tanto da nossa solidariedade comum", disse Merkel em pronunciamento transmitido pela televisão.

Os cidadãos alemães parecem estar de acordo. Quase três quartos (72%) dos entrevistados pelo instituto Infratest Dimap estão satisfeitos com o gerenciamento da crise, e apenas 30% têm alguma crítica ao governo.

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