Enquanto o governo iugoslavo declarava-se disposto a debater o plano de paz do G-8 e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) voltava a intensificar os bombardeios à Iugoslávia, líderes ocidentais manifestavam claro desentendimento, ontem, sobre uma questão considerada fundamental pelos estrategistas militares para pôr fim ao conflito: a invasão terrestre de Kosovo.
‘‘É uma medida inconcebível’’, disse o chanceler alemão, Gerhard Schroeder, referindo-se à pressão do primeiro-ministro britânico, Tony Blair, em favor da iniciativa.
Quase simultaneamente, em Washington, o presidente Bill Clinton mudava o tom de seu discurso - até então contrário ao desembarque de tropas -, afirmando que ‘‘nenhuma opção pode ser descartada’’ na frente militar.
France PresseLimpeza étnicaGaroto kosovar chega exausto a Kukes, na Albânia. Centenas de refugiados continuam a cruzar as fronteiras da Iugoslávia com Albânia e MacedôniaA exemplo do alemão, os governos do Canadá e da França afastaram a idéia da invasão terrestre. A Itália foi mais longe ao propor a suspensão da Operação Força Aliada antes mesmo da retirada das forças sérvias de Kosovo. A Grécia, por sua vez, pediu uma pausa de 48 horas na campanha aérea para ‘‘reforçar’’ a iniciativa diplomática.
Os contatos diplomáticos entre Estados Unidos e Rússia para uma solução política da crise foram retomados ontem na Finlândia. Reuniram-se em Helsinque o subsecretário de Estado norte-americano Strobe Talbott, o negociador russo Viktor Chernomyrdin e o presidente finlandês, Martti Ahtisaari (especialista na questão balcânica que conta com apoio da União Européia).
O tema da conferência não foi revelado. ‘‘É um trabalho de base para solucionar o problema’’, resumiu Chernomyrdin, que é aguardado hoje em Belgrado.
Na capital iugoslava, o porta-voz da chancelaria Nebojsa Vujovic disse que o presidente Slobodan Milosevic está disposto a debater o plano de paz do Grupo dos Oito (sete países mais ricos e a Rússia), apresentado recentemente em Bruxelas.
‘‘Estamos abertos ao diálogo, apesar de nossas reservas em relação a partes desse plano’’, disse Vujovic. Milosevic veta o item que prevê o desembarque de tropas no país. Ele aceita uma missão desarmada, com mandato da ONU e sem representação dos países da Otan que participam da Operação Força Aliada.
A Otan rejeita qualquer condição de Belgrado e não abre mão do comando das ações militares agora nem no futuro.
Com bom tempo, a aviação da aliança retomou ontem os ataques em grande escala, lançando bombas e mísseis sobre alvos militares e estratégicos em Belgrado, Novi Sad, Nis, Pristina e outras cidades iugoslavas.
Aliança Atlântica bombardeou e interrompeu completamente o trânsito na principal rodovia do país. Destruiu três helicópteros, dois aviões MiG, uma rampa de mísseis Sam-6 e um depósito de foguetes. ‘‘Vamos aumentar a frota de aviões, com a chegada de mais 18 A-10 (antitanques)’’, disse o porta-voz James Shea. Ele mencionou estudos do Pentágono que estimam em 5 mil o número de kosovares assassinados pelos sérvios e em 250 mil (entre 14 e 59 anos) o de desaparecidos.
Vestindo uniformes de combate verde-oliva, os dois soldados sérvios que vinham sendo mantidos como prisioneiros de guerra por autoridades militares americanas chegaram na manhã de ontem ao posto fronteiriço de Roeszke, na Hungria, de onde seguiriam para a Iugoslávia, informou o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.
O embaixador americano na Hungria afirmou que Boban Milen Kovic e Sesko Tairovic foram bem tratados, e oficiais da Cruz Vermelha disseram que os soldados garantiram que eles realmente gostariam de voltar para a Iugoslávia - mesmo correndo o risco de retornar ao front.
Nenhum dos jornalistas presentes a Roeszke pôde ver os dois soldados, que cruzaram a fronteira em direção à cidade de Horgos em solo iugoslavo.
‘‘Eles pareciam bem de saúde’’, declarou a porta-voz da Cruz Vermelha, Nadya Kebir. Os dois soldados chegaram primeiramente no aeroporto de Budapeste a bordo de um avião da Otan procedente de Mannheim, na Alemanha.
Os dois soldados foram capturados no mês passado por rebeldes do Exército de Libertação de Kosovo e entregues a autoridades militares norte-americanas na Albânia.
O consenso sobre a guerra contra a Iugoslávia caiu entre os norte-americanos, que agora querem negociações de paz, segundo a última pesquisa realizada pela rede de tevê ‘‘ABC News’’ junto com o jornal ‘‘Washington Post’’.
Cinquenta e oito por cento dos entrevistados pensam que os aliados devem começar a negociar com Belgrado uma forma de sair do conflito e apenas 38% acham que a Sérvia deve aceitar as condições da Otan.
Domingo, quando foi realizado o último levantamento de dados, 59% dos entrevistados declararam-se favoráveis aos ataques contra a Iugoslávia, nove pontos percentuais a menos do que em abril.
O mesmo fenômeno ocorre com o apoio a uma invasão terrestre, que passou de 57% em abril para 52% em maio. Há contradições nesta questão, já que 56% declaram-se contra o envio de soldados a Kosovo se depois houver ‘‘muitas possibilidades’’ de que algum deles morra em combate.

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