Líder muçulmano é eleito na Indonésia
Pepe Escobar
Agência Estado
De Jacarta
Após um wayang o teatro de bonecos à sombra de puro drama, insuportável suspense e imprevisível anticlímax, seguido de um vulcão de tristeza e raiva explodindo nas ruas, Abdurrahman Wahid, de 59 anos e clinicamente cego, conhecido como Gus Dur, ou O Professor, foi eleito ontem pela Assembléia Consultiva do Povo (MPR) como o quarto presidente da República Indonésia, derrotando Megawati, a filha do pai da pátria, Sukarno, por 373 votos contra 313.
Uma bomba explodira no centro da cidade antes mesmo da contagem dos votos prenunciando o que viria depois. Quatro pessoas ficaram feridas. Durante a votação, um carro do partido de Megawati explodiu, matando uma pessoa, ferindo 18 e provocando confrontos de seus simpatizantes com a polícia.
O mar vermelho pró-Megawati celebrava a vitória, antes mesmo da votação. Horas depois, milhares nas ruas ainda se recusavam a acreditar no resultado pensando que Gus Dur, suposto amigo íntimo de Megawati, iria entregar-lhe a presidência.
Cerca de 10 mil partidários de Megawati protestaram, atirando pedras e coquetéis molotov por onde passavam, no centro de Jacarta. Um centro de convenções foi incendiado. A polícia usou gás lacrimogêneo e balas de borracha para conter a multidão.
A confrontação nas ruas com os Darth Vaders hiperarmados dos comandos antidistúrbios foi inevitável. A garotada brandia cartazes que iam de Mega ou Revolução a Mega, Minha Mãe, Minha Presidente.
Gus Dur pode ser um líder moral na Indonésia, mas será um presidente de extrema fraqueza, física e politicamente. Um diplomata da União Européia, resumindo a perplexidade absoluta da comunidade e dos mercados internacionais, acredita que a MPR escolheu uma metáfora: Com o país cambaleando, vão eleger justamente um cego!
Gus Dur qualificou sua eleição como a segunda independência da Indonésia e declarou-se disposto a celebrar nossa vitória sua e de Megawati. Ela terá invocado todo o panteão divino hindu para conter suas lágrimas. Gus Dur é o líder religioso da Nahdlatul Ulama a maior organização islâmica (35 milhões de membros) do maior país islâmico do mundo e fundador do PKB, um partido islâmico moderado.
Pragmático, oportunista e sumamente errático, ele mantém, no entanto, boas relações com os militares, sem os quais ninguém é capaz de governar a Indonésia.
Se a Nova Ordem de Suharto pode ter terminado ontem, seus subprodutos permanecem vivíssimos. Essa foi uma irretocável vitória tática do Golkar a máquina partidária montada por Suharto. Foi uma vitória do voto sectário anti-Megawati. E foi, acima de tudo, uma vitória do Islã do sudeste da Ásia contra os seculares nacionalistas uma clivagem irresolúvel que ainda será capaz de quebrar o arquipélago indonésio.
Quando a direção do Golkar se certificou de que seu candidato o teatral B. J. Habibie, atual presidente do país era um pato morto, retirou-se da corrida presidencial e concentrou-se nas altas apostas por trás das cortinas.
É praticamente certo que o Golkar estará de volta ao poder por intermédio de seu chairman, a super-raposa Akbar Tanjung que hoje poderá ser eleito vice-presidente do país.
Gus Dur não é capaz de ler uma placa de rua sozinho. Tanjung, uma versão indonésia de Golbery do Couto e Silva, deve guiar a máquina do governo, que conhece a fundo. Comenta-se insistentemente em Jacarta que a ala negra corrupta do Golkar votou em massa em Gus Dur em troca de favores futuros.
O Golkar também deverá ter várias posições-chave no gabinete de Gus Dur. Ou seja: nada, em essência, mudará na Indonésia supostamente democrática.
Quem fez o presidente Gus Dur foi o não menos oportunista Amien Rais atualmente líder da MPR. Foi o reformista Rais, líder da segunda maior organização muçulmana do país, quem propôs a candidatura do Professor e coordenou o Eixo Central a coalizão de última hora de partidos islâmicos que votou em bloco contra Megawati. Rais já prepara seu caminho para ser o próximo presidente.
A reação do mar vermelho as grandes massas que adoram Megawati passou da euforia à incredulidade, e daí à tristeza abissal e a uma tremenda frustração. O editor de um jornal timorense destruído pelas milícias pró-Indonésia e atualmente em busca de investidores com US$ 500 mil para relançá-lo resumiu a atmosfera das ruas: É como se a eleição de junho não tivesse adiantado nada. Essas pessoas da MPR são inconsequentes. Isso jamais aconteceria em um país realmente democrático. Megawati venceu as eleições parlamentares de junho.
Já de madrugada, não poderia haver maior contraste entre a vontade popular e frenéticas negociações que duraram menos de oito horas entre a rejeição pela MPR do discurso de prestação de contas de Habibie, na terça-feira, e o início da sessão de votação presidencial.
Mega dizia a voz da contagem dos votos. Yes! respondiam as galerias. Megawati estava tão imperturbável como um sultão javanês. Megawati parecia destinada à vitória.
O dia já havia começado com sucessivos golpes de teatro. Habibie retirou-se do páreo, mas logo os candidatos dobraram de número.
O Golkar flertou com Akbar Tanjung, mas decidiu não nomear ninguém. E a candidatura de Yuzril Mahindra, conservador islâmico do Partido Estrela Crescente e ex-redator de discursos de Suharto, durou menos de três horas. Quando Mahindra renunciou a sua candidatura no próprio plenário, em uma reviravolta espetacular, o futuro de Megawati revelou-se negro.
Sobraram apenas Gus Dur e Megawati rejeitada pelo voto islâmico em bloco, que jamais poderia aceitar uma secular nacionalista e, ainda por cima, uma mulher.
Três temas permeiam a reação popular: as pessoas consideram-se tristes, de coração partido e traídas. A sensação indiscriminada é que a eleição verdadeiramente democrática de junho, vencida pelo PDI-P de Megawati, com quase 35% dos votos, foi uma quimera.
Um estudante nas ruas de Jacarta observou que a Constituição exige um presidente com saúde e fisicamente em forma, o que não é o caso de Gus Dur cego, diabético e vítima de um enfarte há dois anos. Um professor, em lágrimas, lamentou o resultado e disse que será difícil construir um sistema democrático na Indonésia.
E uma economista tocou no xis da questão: para ela, tudo é culpa do oportunismo e da ambição de Amien Rais e da ambição e da traição de Gus Dur. A Indonésia supostamente democrática não poderia nascer mais dividida e amarga.Abdurrahman Wahid, de 59 anos, supera a favorita Megawati em votação no Parlamento. A violência explode nas ruas
France PresseTeatro de sombrasAbdurrahman Wahid discursa na Assembléia Consultiva do Povo após sua eleição, enquanto nas ruas os partidários de Megawati expressavam sua frustração e enfrentavam as forças policiaisFrance PresseMegawati: queda na assembléia





