Tripoli - O governo da Líbia surpreendeu o mundo neste sábado ao anunciar - após nove meses de negociações secretas com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha - que suspendia e abandonava seu programa de armas de destruição em massa.
''A Líbia está à frente dos países que trabalharão para que o mundo se desfaça de todas as armas de destruição em massa'', declarou neste sábado o líder líbio, o coronel Muammar Kadafi, após Trípoli ter anunciado oficialmente na sexta-feira que desistia de seus programas para obter armas químicas, biológicas ou nucleares.
O coronel Kadafi, no poder desde setembro de 1969, garantiu que seu país cumpriria ''um papel de primeiro plano para construir um mundo sem terrorismo, sem essas armas, um mundo em paz e em desenvolvimento''. Na sexta-feira, feriado na Líbia, o ministro das Relações Exteriores líbio, Abdelrahman Chalgram, convocou a imprensa durante a noite para ler, sem fazer nenhum comentário, uma declaração na qual admitia pela primeira vez que Trípoli havia tentado desenvolver este tipo de armas, apesar de a Líbia desmentir essa informação durante os últimos anos.
A Líbia admite que ''durante o período da guerra fria e as tensões que marcaram a região do Oriente Médio, tentou desenvolver suas capacidades defensivas quando não se prestava atenção a seus pedidos para converter o Oriente Médio e África em zonas isentas de armas de destruição em massa''.
Esta declaração acrescenta, sem dar mais detalhes, que especialistas líbios, americanos e britânicos haviam discutido o assunto e que a parte líbia entregou a seus interlocutores ''substâncias, equipes e programas que conduzem à produção de armas de destruição em massa''.
''Os equipamentos incluem centrifugadoras e material para transportar produtos químicos'', de acordo com o comunicado, que acrescenta que a Líbia, formalmente, ''decidiu por sua própria vontade se desfazer de todas estas substâncias, materiais e programas para se transformar em um país isento de armas de destruição em massa'', e reduzir o alcance de seus mísseis''.
Como consequência, a Líbia se compromete a respeitar as convenções sobre a eliminação das armas de destruição em massa e se declara disposta a submeter-se a um controle internacional.
''A Líbia reitera seu compromisso de respeitar todas as convenções, entre elas o protocolo adicional ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP), e se declara disposta a receber qualquer missão de inspeção internacional'', diz o texto oficial distribuído à imprensa.
Pouco após este anúncio, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, afirmou que a Líbia iniciou um processo que lhe permite ser reintegrada à comunidade internacional.
O primeiro-ministro britânico Tony Blair, confirmou esta notícia em Londres. Segundo Bush, a decisão líbia justifica a postura defendida por Washington e Londres de convencer pela diplomacia ou a força os países que possuem programas de armas de destruição em massa a abandoná-los.
No dia seguinte a este anúncio, em Trípoli não houve nenhum comentário disponível sobre este acontecimento, que só o coronel Kadafi, que durante anos cultivou a imagem de um agitador universal, poderia orquestrar.
Os líbios necessitam mais do que nunca de reconstrução econômica e social e não de armas de destruição'', escreveu simplesmente o jornal oficial Al Chams (O Sol), o único que citou a decisão.
Por sua parte, o ministro das Relações Exteriores britânico, Jack Straw, disse ontem à emissora de rádio da BBC que Kadhafi deve ser ''aplaudido sem reservas'', pois ''provou que tem grandes qualidades de homem de Estado.

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