Legado colonial ainda angustia Portugal
Barry Hatton
Associated Press
Vinte e cinco anos após a revolta liderada pelo Exército ter acabado com a ditadura e restaurado a democracia, Portugal ainda sofre com o legado de guerras civis e a pobreza profunda de suas antigas colônias.
Em 25 de abril de 1974, a Revolução dos Cravos uma alusão às flores vermelhas fincadas no cano dos fuzis dos soldados derrubou, praticamente da noite para o dia, os 40 anos do regime ditatorial instaurado por Antônio Salazar e herdado por Marcelo Caetano, e libertou as colônias portuguesas.
Embora a revolução hoje desfrute de apoio popular, o processo de descolonização é considerado trôpego.
Durante cinco séculos, Portugal governou extensas áreas da África, bem como territórios menores, e agarrou-se às suas possessões além-mar mesmo quando outros países europeus desfaziam-se de seus impérios, nos anos 60.
Os oficiais do Exército que cresceram conscientes da crueldade das guerras contra os movimentos pró-independência na África trataram, porém, de derrubar o salazarismo e pôr em prática uma retirada precipitada e pouco planejada da maioria das colônias portuguesas.
A falta de preparo provocou vácuo de poder nas colônias, empurrando-as para as guerras civis e a miséria, enquanto Portugal, com 10 milhões de habitantes, começava a se tornar um próspero membro da União Européia.
Hoje, o que se vê é uma mistura incômoda de orgulho nacional pelo passado imperialista e culpa pela maneira catastrófica como o mesmo se dissolveu.
Os conflitos em cinco ex-colônias na África Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe foram alimentados durante a Guerra Fria por Estados Unidos e União Soviética, que disputavam a influência sobre a região.
Da mesma forma, temendo o avanço comunista à sua porta, a Indonésia capturou Timor Leste à força em 1975, meses após a saída do regime colonial português, que deixou como herança um conflito até agora não solucionado.
As iniciativas recentes da Indonésia para chegar a um acordo com Timor e a planejada devolução de Macau à China, em dezembro, poderão encerrar o envolvimento colonialista de Portugal com a Ásia.
O empresário Luís Cunha, que liderou um comando do Exército em Angola durante a retirada portuguesa, classifica o processo de descolonização como vergonhoso.
Todos nós devemos ser culpados; todos da minha geração, disse. Deixamos esses países desamparados.
Rica em petróleo e diamantes, Angola era a jóia do império português. Há 24 anos, o país situado na costa sudoeste da África sofre com a guerra civil.
Moçambique, na costa sudeste da África, finalmente encontrou a paz em 1992. Já Guiné-Bissau recentemente voltou a mergulhar no conflito, enquanto São Tomé e Príncipe vive sob instabilidade política. Por fim, Cabo Verde amarga a pobreza.
Os exploradores portugueses que descobriram e conquistaram novas terras nos séculos 15 e 16, como Vasco da Gama e Bartolomeu Dias, são heróis nacionais. E das colônias vieram as riquezas que financiaram os mais fantásticos monumentos arquitetônicos do país e transformaram Portugal em uma potência.
Depois da Segunda Guerra Mundial, quando a maré começou a se virar contra os impérios coloniais da Europa, Portugal permaneceu na contramão.
A guerra que enfraqueceu as potências européias levou Grã-Bretanha, França e Bélgica a abrir mão de suas colônias africanas na década de 60, mas Salazar rejeitou as mudanças e lançou o lema Orgulhosamente sozinhos.
Adriano Moreira, que era ministro de Salazar para as colônias e atualmente trabalha como professor universitário, diz que as dificuldades atuais resultam da incapacidade do ex-ditador em compreender as mudanças no pós-guerra.
O governo de Salazar acreditava piamente que a Europa se reergueria e seus impérios coloniais seriam perpetuados, analisou Moreira.
O professor, porém, também responsabiliza os líderes da Revolução dos Cravos, que, segundo ele, não pensaram nas consequências da independência abrupta das colônias.
Simplesmente não havia um conceito sobre como fazer a descolonização. Simplesmente nos retiramos, entregamos tudo, disse.
Apesar do caos, os portugueses mantiveram laços fortes e amistosos com suas antigas colônias. Também se orgulham da absorção tranquila de imigrantes negros, a qual não deixa dúvidas quanto à inexistência de práticas racistas.
Talvez Timor Leste ainda represente o maior peso na consciência nacional devido à perseguição das tropas indonésias à população civil e às gritantes violações dos direitos humanos.
Mas solucionar o conflito em Timor seria um grande passo para a cura das cicatrizes abertas pela descolonização.Embora a Revolução dos Cravos desfrute hoje de apoio popular, o processo de descolonização é analisado como trôpego e precipitado
Arquivo FolhaDesastre humanitárioMilhares de refugiados da guerra civil passam fome em Angola, antes a jóia do império português





