Rio - Depois de ter sido considerada durante anos pelos Estados Unidos o seu quintal, a América Latina, hoje em segundo plano, não aguarda grandes mudanças com a eleição presidencial americana, embora o Brasil espere aproveitar o desinteresse para seguir ampliando sua influência na região.
Enquanto Washington centrou sua atenção em Oriente Médio, China, Afeganistão e Irã, a América Latina, governada em grande parte pela esquerda, ganhou autonomia e criou organismos como a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e a União de Nações Sul-Americanas (Unasul), que deixam os Estados Unidos de fora.
Este esquecimento deu ao ''Brasil espaço para crescer, para articular políticas regionais, para fazer uma integração da infraestrutura'' latino-americana, considera Bruno Borges, especialista em Relações Internacionais da PUC-Rio. Com isso, o Brasil se transformou ''na potência regional moderada, que conversa com todos'' e que, como principal interlocutor de Washington na região, mostra aos Estados Unidos que ''não há nada a temer'', acrescenta.
As relações dos Estados Unidos com a América Latina são basicamente econômicas, e a região ''continuará em segundo plano, com vitória do presidente Barack Obama ou de seu rival republicano Mitt Romney'' nas eleições presidenciais de 6 de novembro, considera Rubens Barbosa, embaixador brasileiro em Washington.
Em seu último debate, Obama não mencionou a América Latina ao menos uma vez. Já Romney propôs aumentar o comércio com a região. Mas especialistas apontam que a proposta de Romney não é realista. Devido à crise, ''nem mesmo os republicanos, que tradicionalmente defendem o livre comércio, estão em condições de aumentar o intercâmbio com a região'', diz Borges.
Washington já possui tratados de livre comércio com México, América Central, Panamá, Colômbia, Peru e Chile. ''Os demais países, como Venezuela e outros 'bolivarianos', não querem um TLC com os Estados Unidos, e o Brasil e o Mercosul também não, porque os Estados Unidos não vão abrir o setor agrícola, que nos interessa'', explica Barbosa.
A América Latina deixou de ser uma prioridade para Washington ''porque acabaram os conflitos. Chávez não é uma ameaça. Cuba deixou de ser uma ameaça'' e a guerrilha das Farc negocia a paz com o governo da Colômbia, diz Barbosa.
Embora Venezuela e Estados Unidos não tenham laços diplomáticos, Chávez vende a Washington - seu principal sócio comercial - quase um milhão de barris de petróleo por dia. O presidente venezuelano chegou a apelidar seu antecessor republicano George W. Bush de ''burro'' e ''bêbado'', mas moderou o tom com Obama. Dias antes de ser reeleito até 2019, declarou inclusive que ''se fosse americano, votaria em Obama''.

mockup