Kosovo: verdadeiro desafio começa agora
Mônica Yanakiew Agência Estado
Depois de aguentar onze semanas de bombardeios, o presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic, recuou. Foi convencido pela força a retirar suas tropas do Kosovo e permitir a volta dos 800 mil albaneses étnicos expulsos de lá. Mas para os Estados Unidos e seus 18 aliados na Otan, que ainda comemoram sua vitória militar, o verdadeiro desafio começa agora.
A estabilidade do Kosovo - a província iugoslava, cuja autonomia Milosevic retirou em 1989, provocando o descontentamento da maioria da população, de origem albanesa - ainda está em jogo. A resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas, que selou o fim da campanha militar, é tão ambígua que dá margem a duas interpretações. Enquanto o preâmbulo fala na preservação da integridade territorial da Iugoslávia, o texto dá margem para novas discussões sobre o status futuro do Kosovo.
Cada qual interpreta a resolução como quer: Milosevic e os russos dirão que Kosovo continuará sendo uma província iugoslava, com maior autonomia, enquanto que os guerrilheiros do ELK (Exército do Liberação do Kosovo) dirão que têm direito à independência pela qual tanto lutaram, explicou Ivo Daalder, ex-diretor de Assuntos Europeus do Conselho de Segurança dos EUA. Na sua opinião, essa ambiguidade era necessária.
Nem Milosevic, nem a Otan e muito menos os russos (que têm seus próprios conflitos internos no Cáucaso e cujo apoio foi importante nas negociações) querem um Kosovo independente. Estabeleceria um perigoso precedente internacional - e se amanhã os bascos na Espanha, os húngaros na Romênia, os chechenos na Rússia quisessem todos tornarem-se independentes da mesma forma?
Mas segundo Daalder, era impossível excluir a independência como uma opção para o futuro. Especialmente depois de quase três meses de bombardeios da Otan e de uma campanha de limpeza étnica empreendida por Milosevic.
Se a resolução do Conselho de Segurança tivesse feito isso, praticamente impossibilitaria a cooperação da guerrilha no processo de paz. No fundo, todos estão torcendo por um final feliz, no qual Milosevic é destituído e julgado como criminoso de guerra pelo Tribunal da Haia e os habitantes do Kosovo aceitem permanecer numa Iugoslávia democrática. Mas até que isso aconteça (se acontecer) os desafios são inúmeros.
Essa próxima etapa, de manter a estabilidade no Kosovo, será complicada, admitiu um assessor do Secretário de Defesa dos EUA, William Cohen. Não será fácil controlar os guerrilheiros do ELK, acrescentou. Daalder for mais específico. A resolução, lembra, fala em desmilitarização da guerrilha e não em desarmamento. Desarmar é tirar deles todas as armas, desmilitarizar é impedir que constituam uma força militar - mas podem sempre ser uma espécie de guarda nacional ou força policial, explicou Daalder.
Garantir a segurança de 200 mil sérvios e 1,4 milhão de albaneses, que conviviam no Kosovo antes dos bombardeios e que agora se odeiam, não depende apenas da retirada das tropas de Milosevic e da desmilitarização da guerrilha. Depende também da retirada de um milhão de minas terrestres e explosivos e da reconstrução da província, que deverá custar US$ 30 bilhões nos próximos cinco anos.





