A Justiça ordenou neste fim de semana a investigação dos bens de quase todos os senadores argentinos, o que implica a averiguação de contas bancárias, investimentos na bolsa, além de compras de propriedades.
A decisão de ampliar a investigação para vários outros senadores, além dos envolvidos na acusação de ter recebido suborno para aprovar uma proposta do governo para reformar a lei trabalhista, levanta suspeitas de que o número de parlamentares vinculados ao escândalo poderia ser maior do que se imagina.
O juiz federal Carlos Liporaci, encarregado da investigação, considera ‘‘relevante’’ o fato de carca de 20 senadores terem viajado para o exterior imediatamente após a votação da lei trabalhista – que acabou com as indenizações para períodos de experiência e com os contratos coletivos de trabalho –, em abril.
Essa poderia ser uma evidência de transferência de fundos a contas no estrangeiro. Os suspeitos são sete senadores do oposicionista Partido Justicialista (conhecido também como ‘‘Peronista’’) e de um da governista União Cívica Radical (UCR).
Os senadores teriam recebido dinheiro do governo para aprovar a lei considerada fundamental pelo presidente Fernando de la Rúa – já que as reformas eram exigidas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
O suborno foi denunciado pelo veterano senador peronista Antonio Cafiero, mas foi capitalizado pelo vice-presidente da república, Carlos Chacho Álvarez, que ampliou as denúncias, em uma manobra que muitos analistas definem como uma ‘‘arriscada’’ tentativa de aumentar seu espaço de poder. O escândalo atingiu os peronistas e a UCR, mas deixou incólume a Frente para um País Solidário (Frepaso), partido de Álvarez, que integra a coalizão de governo.
O juiz Liporaci também está investigando quem pode ter sido o possível subornante: um dos suspeitos é o secretário da Fazenda, Mario Vicens, encarregado dos ‘‘fundos reservados do governo’’, fundos especiais sobre os quais o Poder Executivo está isento de dar explicações sobre seu uso.
Na terça-feira, o Congresso decidirá a suspensão da imunidade parlamentar dos oito senadores envolvidos diretamente. Caso a imunidade seja suspensa, eles poderão ser processados.
A classe política argentina está em seu ponto mais baixo de credibilidade desde as vésperas do golpe militar de 1976. Uma pesquisa da empresa Graciela Romer e Associados, mostra que 88% dos argentinos não confiam nos deputados, senadores e juízes de seu país.
De la Rúa, embora não esteja sendo envolvido diretamente no escândalo, também foi atingido pela perda generalizada de credibilidade: segundo a pesquisa seu índice de confiança caiu para 40%, enquanto que um grupo maior – 47% da população – desconfia dele. Outra pesquisa, do Centro de Estudos da Opinião Pública (Ceop), indica que a desconfiança na Justiça argentina para resolver o escândalo é escassa: 70% dos pesquisados consideram que nenhum senador será condenado. ‘‘Tudo isto vai diluir-se e nunca se saberá a verdade’’ é a opinião da maioria, segundo o Ceop.

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