Arquivo AE
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Desprezado pelos alemães, que nunca lhe perdoaram ter celebrado a guerra; resgatado pelos Verdes, que viram nele um ecologista messiânico; adulado na França pela beleza da forma e estilo, hoje Junger está indo emboraErnst Junger morreu com 102 anos. Com 102 anos, vejam só! E, no entanto, quando ele saiu, em 1918, de quatro anos de uma guerra desumana, ninguém teria dado um figo podre pela sua carcaça, perfurada por 14 buracos de bala. Mas ele não morreu. Em vez disso, recebeu a medalha de Honra ao Mérito, a mais alta condecoração militar alemã. E ainda arranjou energia para viver outros 80 anos.
Foram 80 anos muito estranhos. Inesperados. Em 1918, o seu destino parecia traçado: era um guerreiro fascinado pelas formações políticas mais reacionárias, violentas e medievais de uma Alemanha que, na década de 20, estava à beira do abismo. E, de fato, durante a delirante República de Weimar, Junger fez uma porção de coisas.
Para começar, ficou célebre escrevendo livros odiosos sobre a guerra, que celebravam o sangue e a morte: ‘‘A Guerra, Nossa Mãe’’, ‘‘Tempestades de Aço’’... Depois, levou o seu prestígio a todos os movimentos ultranacionalistas que pululavam no caos do pós-guerra. O jovem escritor genial Ernst Junger parecia feito sob medida para se transformar na vitrine cultural do que se tramava na sombra da anarquia: o nazismo de Hitler.
Pois Ernst Junger decepcionou a extrema-direita. Quando Hitler subiu ao poder, pediram-lhe que se convertesse numa espécie de ‘‘Malraux alemão’’ e ele se esquivou. Não quis ser nem deputado, nem ministro da Cultura, porque achava Hitler vulgar demais e se afinava mais com os velhos aristocratas prussianos, saídos da noite dos tempos, que desprezavam o Fuehrer solenemente. Ao contrário do que muita gente pensa, os prussianos sempre detestaram a demagogia e o rancor hitleristas. O Fuehrer ia buscar seu apoio entre os burgueses encharcados de cerveja de Munique, e não nas planícies glaciais da Prússia.
Depois da ascensão de Hitler em 1933, portanto, Junger preferiu ficar silencioso. Transformou-se num ‘‘exilado interno’’. Escreveu um novo livro, profético, ‘‘O Trabalhador’’, em que anuncia as grandes mudanças da modernidade, falando do desaparecimento da guerra cavalheiresca de outrora, substituída pela guerra de robôs, da qual os ignóbeis combates de 1914-1918 tinham sido as premissas.
A partir desses anos, Junger transforma-se num eremita e, em total solidão, lê muitos livros franceses antigos, escreve, dedica-se ao estudo dos insetos, interessa-se por relógios antigos, em especial os de sol. Coleciona pedras, cuida de seu jardim, escreve livros numa língua espantosamente bela, que o aproxima de Thomas Mann ou até mesmo de Goethe. É também um discípulo de Nietzsche, cuja obra, de certa maneira, ele expande, pois continua a se interrogar sobre a mesma pergunta feita tanto por Nietzsche quanto por Dostoiévski: ‘‘Além do niilismo, em que desertos entramos? E o que fazer desses desertos?’’
As obras-primas se sucedem. E, em 1938, um texto estranho: ‘‘Nas Falésias de Mármore’’. Trata-se de um romance, ou melhor, de uma parábola no sentido kafkiano, que nos introduz, sob máscaras transparentes, no labirinto infernal do nazismo. Escrito numa língua divina, construído como uma catedral gótica, esse livro há de permanecer como uma das maiores obras deste século.
Os dignitários nazistas, que não são nem um pouco bobos, lêem o livro e ficam revoltados, pois percebem que ele descreveu Hitler como o Mal personificado. E pedem a seu chefe que castigue o escritor renegado. Mas Hitler, que se lembra muito bem de suas proezas de 1914-1918, decreta: ‘‘Não toquem em Ernst Junger!’’
Alguns anos mais tarde, em 1945, quando o horror nazista é derrotado pelos aliados, Ernst Junger é levado perante a Comissão de Desnazificação. Sem razão alguma, pois ele sempre foi um inimigo intratável dos nazistas. Mas como, depois de 1918, ele tinha sido cúmplice da extrema-direita, é levado a julgamento. Acontece que o chefe da comissão que vai estudar o caso Junger é o grande dramaturgo Bertolt Brecht, comunista ortodoxo. E é ele quem, sem o saber, vai dizer a mesma frase que Hitler tinha pronunciado, anos antes: ‘‘Não toquem em Ernst Junger!’’
Depois disso, é a calmaria. Junger não mantém mais relações com o seu século. Escreve as suas obras-primas: ‘‘Aproximações, Drogas, Embriaguez’’ (sobre as suas experiências pessoais com a droga), ‘‘O Tratado da Ampulheta’’, ‘‘Eusmewill’’, ‘‘O Tratado da Rebelião’’, ‘‘A Passagem da Linha’’, ‘‘A Muralha do Tempo’’. E o seu diário, ao qual dá um título magnífico: ‘‘70 se apaga’’.
Não teremos a pretensão de falar de sua obra. Como seria possível, em uns poucos minutos, falar do Oceano? Desprezado pelos alemães, que nunca lhe perdoaram ter celebrado a guerra; resgatado pelos Verdes, que viram nele um ecologista messiânico; adulado na França, porque os franceses valorizam, antes de mais nada, a beleza da forma e do estilo, hoje Junger está indo embora. A sua vida foi um enigma. A sua obra é um enigma. Temos a eternidade, no silêncio de seu sepulcro, para tentar decifrá-las.

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