Jornalista é mutilado e morto no Timor
Associated Press
De Dili, Timor Leste
Três dias após a Força Internacional das Nações Unidas para Timor Leste (Interfet) ter desembarcado na assolada província indonésia, o comandante australiano da missão admitiu que ele não tem soldados suficientes para proteger todas as áreas de Dili, a capital timorense.
O general australiano Peter Cosgrove disse que o controle está sendo estabelecido em certos setores da cidade, mas é evidente que Dili continua sendo um lugar perigoso, em particular para os numerosos jornalistas que estão aqui.
O corpo mutilado do jornalista holandês Sander Thoenes, correspondente do jornal inglês Financial Times, foi encontrado ontem em Becora, subúrbio de Dili. Um timorense que transportava Thoenes em uma motocicleta disse à imprensa que homens com uniformes militares dispararam quando eles tentaram burlar um bloqueio numa estrada de Becora, reduto de milicianos pró-Indonésia, armados e apoiados por militares indonésios. O motociclista conseguiu fugir, mas o jornalista caiu nas mãos dos atacantes.
Na terça-feira, um repórter britânico e um fotógrafo americano partiram de Timor Leste depois que milicianos atacaram o carro em que estavam, ferindo seriamente o motorista e sequestrando o intérprete.
O chanceler indonésio, Ali Alatas, lamentou ontem o assassinato de Thoenes, de 30 anos, a quem ele conheceu pessoalmente.
Entre terça-feira e ontem vários prédios foram incendiados e alguns refugiados, que se dirigiam a um estádio de futebol sob a guarda da ONU, foram acossados por soldados indonésios que queimaram seus pertences. Também foram encontrados por residentes de Dili os corpos de cinco pessoas em um poço no fundo da casa de Manuel Carrascalão, um importante líder da resistência.
Foram verdadeiras 24 horas de perigo, disse o general Cosgrove. Os soldados da Interfet começaram ontem, cautelosamente, a trasladar-se para outras áreas de Timor Leste. Segundo o general australiano Mark Evans, 150 soldados já chegaram a Baucau, a segunda mais importante cidade de Timor Leste. Ainda há muita gente perigosa por aí, disse Evans.
Vários grupos de milícias uniram-se ontem em uma frente e proclamaram que combaterão para reconquistar o controle da ex-colônia portuguesa. Milhares de milicianos com fuzis, pistolas e machetes, gritando a favor da união de Timor Leste com a Indonésia, reuniram-se na localidade de Atambuia, perto da fronteira com Timor Oeste.
Os milicianos, acusados de matar milhares de timorenses, iniciaram uma verdadeira campanha de terror no dia 4, após o anúncio do resultado do plebiscito amplamente favorável à independência do território.
Tropas da Interfet invadiram ontem um quartel-general dos milicianos em Dili, detiveram seis homens e apreenderam além de muitas armas, várias fotos e documentos. O QG da milícia, um antigo hotel, foi usado como centro de tortura pelas tropas indonésias.
Os soldados da Interfet também foram obrigados a conter centenas de refugiados timorenses famintos que desceram das montanhas perto de Dili e saquearam um armazém governamental, levando sacos de arroz, farinha e óleo. Após três dias de interrupção, os vôos com ajuda humanitária foram retomados ontem.
Angustiado com o alto custo pago por seu povo pela independência da Indonésia, o líder de Timor Leste José Alexandre Xanana Gusmão lançou um apelo ontem para que o mundo ajude a reconstruir seu devastado país.
Xanana falou em um discurso emocionado a partidários refugiados em Darwin, Austrália. Fomos destruídos, disse Xanana. Muitas esposas não sabem onde estão seus maridos. Muitas crianças não sabem onde estão seus pais. É como se fosse o destino dos timorenses sofrer, lutar, sentir o sabor da vitória, e depois sofrer mais, e mais, e mais, disse.Comandante da Interfet diz não poder garantir a segurança em todo o Timor Leste e admite que precisa de mais tropas
France PresseDestruiçãoSoldado australiano patrulha uma rua da destruída Dili. Na Austrália, o líder timorense no exílio, Xanana Gusmão (destaque) pediu ajuda internacional





