A Jordânia entra num período repleto de todos os perigos, depois da morte do rei Hussein, hoje substituído por seu filho, Abdullah Ibn Hussein. Segundo todos os especialistas, sejam quais foram as suas qualidades, Abdullah não tem experiência política. Em contrapartida, seu país, a Jordânia, conhece experiências dramáticas, pois, desde sua criação, no dia 24 de abril de 1949, não cessou de estar no olho deste furacão que é o Oriente Médio.
Uma das coisas estranhas do reino jordaniano é que, embora se trate de um país criado recentemente - há apenas 50 anos - de um país novo e artificial, esta sua juventude, bem como este aspecto artificial, são ilusórios: na realidade, mais abaixo desta construção abstrata de 1949, a Jordânia é uma das mais antigas, uma das mais nobres e uma das mais tumultuadas regiões do globo.
A partir do segundo milênio (antes de Cristo), as duas margens do Jordão são tstemunhas da presença profética de alguns indivíduos muito famosos: Abraão alí está, com seus companheiros, na floresta de Mambré, ao norte de Hebron, e seus despojos foram sepultados, juntamente com os de Isaac e de Jacó, na gruta de Macpela.
Alguns séculos mais tarde, eis outro homem famoso: em 1250, Moisés, com as tribos de Israel, deixa o Egito e sobe, a partir de Eilath, junto ao Mar Vermelho, para fundar os reinos de Emon, Moab e Amon. Três séculos se passam e eis um novo ‘‘visitante’’: Davi, que submete o mundo todo e transforma Jerusalém na capital de um grande Estado palestino.
Sete séculos depois de Davi, a tribo árabe dos nabateus funda um reino, tendo Petra por sua capital. E depois, é Roma que vem impor sua marca sobre o Jordão, por meio do imperador Trajano, o que explica a beleza dos monumentos romanos do deserto jordaniano, monumentos que se acrescentam aos que, alguns séculos antes, foram erguidos pelo conquistador dos conquistadores, o grego Alexandre Magno.
Não podemos acompanhar passo a passo dois mil anos de história. Lembremos simplesmente algumas carnificinas: no século VI, as invasões: os Persas Sassanidas se apossam da ‘‘verdadeira cruz’’ e destróem Jerusalém. Logo depois, soa a hora dos árabes. Em 638, seis anos depois da morte do profeta Maomé, os árabes se levantam, tomam a Palestina e capturam Jerusalém.
Constróem ali a famosa cúpula do Rochedo (a mesquita de Omar) e isso explica porque Jerusalem é uma ‘‘cidade três vezes santa’’: aos olhos dos judeus, aos olhos dos muçulmanos e, naturalmente, para os cristãos. E os cristãos lançam exatamente as Cruzadas para arrancar os ‘‘lugares santos’’ das mãos dos muçulmanos. Jerusalém é conquistada em 1099. Um ‘‘reino franco’’ é então construído na Palestina.
Começa logo depois, neste final da Idade Média, um período, não mais brilhante, mas mais estável: em 1453, os turcos (que deixaram a Mongólia três seculos antes) tomam Constantinopla (Istambul) e é então o Império Otomano, um dos mais poderosos de toda a história, que faz surgir, diante da potência do Império dos Habsburgos, na Europa, um Império muçulmano que se irradia, a partir de Constantinopla, para o Oeste da Europa (Albânia, os Balcãs) e para o Leste, rumo ao Oriente Médio, inclusive a Jordânia.
É a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) que desfaz o poder otomano. A Inglaterra se aproveita da guerra e da agitação nacionalista para participar da queda dos otomanos e para se introduzir, em lugar dos turcos, nas margens do Império (Síria, Líbano, Transjordânia, etc.). O ‘‘serviço de inteligência’’ de Londres faz maravilhas.
Londres faz promessas: garante que vai ser estabelecido um ‘‘grande reino árabe’’. A revolta árabe contra os turcos explode no dia 10 de junho de 1916, sob a direção de Hussein e de seus filhos, Faiçal, Ali e Abdullah. O célebre e genial coronel Lawrence da Arábia (autor de um dos grandes livros dessa época, ‘‘Os Sete Pilares da Sabedoria’’) é o conselheiro de Faiçal. Apesar de tudo, o ‘‘grande reino árabe’’ jamais verá a luz porque Londres trai suas promessas.
Mas serão necessárias as perturbações da Segunda Guerra Mundial, depois o conflito das nações árabes com o jovem Estado de Israel para que a Jordânia comece a tomar forma em 1949, integrada então pela Cisjordânia e pela Transjordânia. Pouco tempo depois da independência, o novo rei da Jordânia, Abdullah, é assassinado por um palestino fanático. Seu filho, Talal, o sucede no trono, mas é uma cabeça ‘‘irresponsável’’ que irá reinar em seu lugar, ou seja, o neto de Abdullah, este ‘‘pequeno rei Hussein’’ que acaba de morrer e ser substituído por seu filho, que também se chama Abdullah.
São portanto os descendentes diretos do Profeta Maomé que reinam na Jordânia. A família hachemita descende efetivamente da filha de Maomé e de Khadja, Fátima, que se casou com Ali e teve por filho Hassan. É sob este título de descendente do Profeta que a família hachemita recebeu há oito séculos a Guarda dos Lugares Santos.
Em 1967 , Hussein perdeu a cidade sagrada dos muçulmanos, Jerusalém Oriental. E a este revés, que constituiu para Hussein uma ferida incurável até sua morte, se acrescenta uma série de recuos da dinastia. Os hachemitas experimentaram desde o início deste século uma sequência de desastres, entre os quais a perda da Meca, de Bagdá, de Damasco e de Jerusalém. Quantas derrotas!
Ora, apesar de todas essas amputações, a Jordânia de 1999 não está menos exposta do que ontem: o vulcão do Oriente Médio lança sempre suas chamas e a Jordânia se encontra mais do que nunca espremida entre o Estado de Israel (com o qual tenta se entender) e países árabes desconfiados, alguns abertamente hostis, como a Síria e talvez o Iraque.
A todos esses incêndios que agitam a região, ao desastre da economia jordaniana, é necessário juntar outro perigo: o desaparecimento do rei Hussein marca o fim de uma geração de grandes líderes árabes, muitos deles inquietantes, mas pelo menos brilhantes, experimentados e cujas táticas e estratégias eram conhecidas.
Hoje uma nova geração se prepara para ocupar o lugar da anterior. O presidente sírio El Assad, formidável político, confia funções cada vez mais elevadas a seu filho Bachar. Na Líbia, o coronel Khadafi encarregou seu filho Saif el Islam de representá-lo nas homenagens a Hussein.
Desta forma, em todos os pontos desta região tão atormentada, o tempo dos ‘‘velhos sábios’’ (por mais perniciosos que tenham sido alguns destes ‘‘sábios’’) chega ao fim. Uma nova geração sobe ao poder: Homens dos quais nada sabemos e cujo ímpeto e juventude e cujo idealismo fazem temer o pior para esta zona frágil que o general de Gaulle definiu tão bem há 50 anos: ‘‘Com idéias simples - escreve ele em suas Mémoires de Guerre, a propósito de suas viagens à Síria - eu voei para o Oriente complicado.’’

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