Joerg Haider afirma hoje o que negava ontem
Reali Júnior
Agência Estado
De Paris
A Áustria assume suas responsabilidades em face da funesta história do século 20 e aos crimes monstruosos do regime nacional socialista. Essa frase que consta do preâmbulo do programa do novo governo austríaco, imposta pelo presidente Thomas Kleistil, foi endossada por Joerg Haider, o principal dirigente do partido de extrema direita do país, o FPOe. Ela revela, entretanto, muitas contradições e mesmo a duplicidade que caracterizam esse dirigente político.
Dias antes de assinar o texto em nome de seu partido, ele havia dito exatamente o contrário numa entrevista ao semanário alemão Der Spiegel, do dia 31, quando tentou explicar a concepção que sua geração tinha do período nazista: Nós, que nascemos após a guerra, hoje só podemos dizer uma coisa: não há razão para assumirmos nenhuma responsabilidade coletiva. Eu me recuso. Ele não aceita nenhum exame do passado, ao contrário de outras dirigentes europeus. Tem deixado bem claro que não pretende percorrer o mundo durante toda a vida com a camisa de penitente.
Hoje, diante da forte reação européia à entrada de seu partido no governo de coalizão austríaco, Joerg Haider não deixa de ser penitente ao tentar forjar uma outra imagem, buscando afastar-se dos dirigentes ultranacionalistas da Europa e comparando-se a alguns de seus mais eminentes líderes. Ontem, numa entrevista ao jornal Le Figaro, Haider procura convencer os franceses de que não é um diabo tão feio como está sendo pintado. Agora ele rejeita o nacionalismo e reivindica o patriotismo, declarando-se alinhado às idéias de Charles de Gaulle e Konrad Adenauer e identificando-se com uma Europa das pátrias.
Um dos únicos a levantar a voz em sua defesa na França foi o dirigente da extrema direita francesa Jean-Marie le Pen, apesar de, hoje, Haider não admitir nenhuma comparação de seu movimento com o do colega francês.
O que mais chama a atenção dos observadores é que a crise austríaca ocorre num contexto econômico muito favorável e de muita prosperidade. A Áustria é um dos países mais ricos da União Européia e mais privilegiado em matéria de proteção social. Teve um crescimento de 2,8% em 1999 e tem uma das mais baixas taxas de desemprego da Europa, apenas 4,4%. O fenômeno Haider, por mais paradoxal que pareça, prova que a prosperidade nem sempre é sinônimo de felicidade coletiva de uma nação. O mal-estar austríaco não está relacionado aos parâmetros econômicos do país, mas, como nos anos 30, parece ser mais um problema de incerteza sobre a identidade nacional.
Para Gunther Tichy, pesquisador da Academia de Ciências Nacionais, os austríacos que demonstram falta de confiança nos dirigentes tradicionais têm medo do estrangeiro, de seu ingresso na União Européia, da globalização e, principalmente, da próxima abertura da UE para os países do Leste Europeu.





