João Paulo II pediu ontem às populações da Croácia e da Europa que renunciem à vingança, ao beatificar o cardeal Stepinac, figura controvertida do passado nazista da Croácia.
O Papa pediu aos povos que limpem ‘‘sua memória do ódio, dos rancores, da sede de vingança’’ em relação aos responsáveis pelos ‘‘três grandes males que marcaram nosso século: o fascismo, o nacional-socialismo e o comunismo’’.
Ante cerca de 300 mil pessoas reunidas no santuário de Marija Bistrica, a uns 30 km de Zagreb, João Paulo II beatificou oficialmente Alojzije Stepinac, arcebispo de Zagreb durante o regime ustachi, aliado de Adolfo Hitler.
Alguns consideram que o prelado foi complacente com o regime de Ante Pavelic e outros o definem como um herói nacional por ter sido preso pelos comunistas.
Os primeiros o acusam de ter tomado conhecimento da matança de dezenas de milhares de judeus, sérvios e ciganos, enquanto os representantes da Igreja local asseguram que falou clara e abertamente a favor das vítimas do nazismo.
‘‘O novo beato sintetiza em sua pessoa, de um certo modo, toda a tragédia que afetou as populações de Croácia e Europa’’, afirmou o Santo Padre.
O Sumo Pontífice assinalou que o cardeal Stepinac aceitou a prisão e inclusive a morte ‘‘para manter a união da Igreja e para defender a liberdade’’.
Stepinac foi condenado em 1946 a 16 anos de prisão e acabou de cumprir sua pena em 1951 em residência vigiada em sua cidade natal de Krasic, onde morreu nove anos mais tarde, depois de ter sido nomeado cardeal por Pio XII em 1953.
Segundo seu ex-secretário, monsenhor Stjepan Lackovic, o cardeal teria sido envenenado.
Em sua homilia, João Paulo II não se referiu a esta hipótese e afirmou que o novo beato é um mártir, embora não tenha derramado seu sangue no sentido estrito do termo.
‘‘Sua morte foi causada pelos longos sofrimentos que suportou: os últimos 15 anos de sua vida foram uma continuidade de julgamentos, durante os quais pôs valentemente sua vida em perigo para defender o Evangelho e a união da Igreja’’, adiantou o Papa.
João Paulo II, que realiza na Croácia sua octagésima-quarta visita pastoral fora da Itália, apareceu em relativa boa forma.
Apesar do apelo do Papa, a beatificação do cardeal Stepinac continua a provocar muitas polêmicas, tanto na Croácia como em toda a Europa. No momento em que a Igreja se prepara para, uma vez mais, fazer um pedido de desculpas pelas falhas e omissões ocorridas ao longo dos séculos, muitos consideram que beatificar uma pessoa acusada de, no mínimo, ter se omitido durante o período nazista, parece um contra-senso.

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