João Paulo II prega liberdade em Cuba
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quinta-feira, 22 de janeiro de 1998
AE-Reuters Havana 
Disposto e bem-humorado, o papa João Paulo II deixou ontem de manhã o aeroporto Leonardo Da Vinci, em Roma para sua histórica visita a Cuba. Ele desembarcou às 19 horas (Brasília) no aeroporto José Marti, em Havana. A bordo do avião MD-11 da Alitalia, ele disse acreditar que o guerrilheiro cubano-argentino Ernesto Che Guevara agiu para ajudar aos pobres, pediu que os EUA mudassem sua política de embargo comercial para Cuba, afirmou que espera ouvir a verdade em seu encontro com o presidente cubano, Fidel Castro, e criticou os processos revolucionários comunistas, qualificando-os de revoluções do ódio.
Tenho certeza de que Che Guevara agia com a intenção de ajudar aos pobres, disse o papa sobre o herói nacional cubano. Ele agora está diante do tribunal do Senhor, e devemos deixar a Ele a tarefa de julgá-lo. Depois da observação sobre Che, um repórter perguntou a João Paulo II como ele via a importância da palavra revolução para os cubanos. Essa palavra tanto serve para designar a revolução de Cristo quanto a de Fidel e de Lenin. Ela tem dois significados diferentes: a primeira é a revolução do amor, enquanto a outra é a revolução do ódio, da vingança e das vítimas, respondeu o papa.
Referindo-se ao encontro que devia manter ontem com Fidel, João Paulo II disse que pretendia ouvir dele toda a verdade, como presidente, como homem e como um comandante como dizem em Cuba de sua revolução.
O papa especificou que vai querer saber de Fidel qual a verdadeira situação das relações entre a Igreja e o Estado na ilha. O presidente sabe bem o que penso sobre o respeito aos direitos humanos. Eles são garantias fundamentais e a base de toda a civilização. Levei essa mensagem à Polônia em 1979, em meu confronto com um sistema comunista totalitário, disse. Com a revolução, Cuba conseguiu avanços memoráveis em seus sistemas de saúde e educação. Espero que esses avanços se ampliem também na ordem da liberdade humana, da dignidade da pessoa. Nessas área há muito o que se avançar.
O presidente cubano sabe muito bem quem é o papa e o que ele pensa sobre determinados assuntos, acrescentou João Paulo II. Se ele o convidou, deve saber de antemão o que ele dirá.
Sobre o embargo econômico que os EUA mantêm contra Cuba há quase quatro décadas, João Paulo II declarou que espera mudanças. Isso tem de mudar, tem de mudar, afirmou. Há anos o papa vem criticando a política de impor sanções econômicas a países como Cuba, Iraque, Irã e Líbia, que, na visão dele, só aumentam o sofrimento dos pobres dessas nações.
Indagado sobre sua saúde, João Paulo II, de 77 anos, brincou: Não é a mesma de 1979, mas procuro manter-me em dia sobre meu estado de saúde diariamente leio os jornais para saber como estou.


