Disposto e bem-humorado, o papa João Paulo II deixou ontem de manhã o aeroporto Leonardo Da Vinci, em Roma para sua histórica visita a Cuba. Ele desembarcou às 19 horas (Brasília) no aeroporto José Marti, em Havana. A bordo do avião MD-11 da Alitalia, ele disse acreditar que o guerrilheiro cubano-argentino Ernesto Che Guevara agiu para ajudar aos pobres, pediu que os EUA mudassem sua política de embargo comercial para Cuba, afirmou que espera ouvir ‘‘a verdade’’ em seu encontro com o presidente cubano, Fidel Castro, e criticou os processos revolucionários comunistas, qualificando-os de ‘‘revoluções do ódio’’.
‘‘Tenho certeza de que Che Guevara agia com a intenção de ajudar aos pobres’’, disse o papa sobre o herói nacional cubano. ‘‘Ele agora está diante do tribunal do Senhor, e devemos deixar a Ele a tarefa de julgá-lo’’. Depois da observação sobre Che, um repórter perguntou a João Paulo II como ele via a importância da palavra revolução para os cubanos. ‘‘Essa palavra tanto serve para designar a revolução de Cristo quanto a de Fidel e de Lenin. Ela tem dois significados diferentes: a primeira é a revolução do amor, enquanto a outra é a revolução do ódio, da vingança e das vítimas’’, respondeu o papa.
Referindo-se ao encontro que devia manter ontem com Fidel, João Paulo II disse que pretendia ouvir dele ‘‘toda a verdade, como presidente, como homem e como um comandante como dizem em Cuba de sua revolução’’.
O papa especificou que vai querer saber de Fidel qual a verdadeira situação das relações entre a Igreja e o Estado na ilha. ‘‘O presidente sabe bem o que penso sobre o respeito aos direitos humanos. Eles são garantias fundamentais e a base de toda a civilização. Levei essa mensagem à Polônia em 1979, em meu confronto com um sistema comunista totalitário’’, disse. ‘‘Com a revolução, Cuba conseguiu avanços memoráveis em seus sistemas de saúde e educação. Espero que esses avanços se ampliem também na ordem da liberdade humana, da dignidade da pessoa. Nessas área há muito o que se avançar’’.
‘‘O presidente cubano sabe muito bem quem é o papa e o que ele pensa sobre determinados assuntos’’, acrescentou João Paulo II. ‘‘Se ele o convidou, deve saber de antemão o que ele dirᒒ.
Sobre o embargo econômico que os EUA mantêm contra Cuba há quase quatro décadas, João Paulo II declarou que espera mudanças. ‘‘Isso tem de mudar, tem de mudar’’, afirmou. Há anos o papa vem criticando a política de impor sanções econômicas a países como Cuba, Iraque, Irã e Líbia, que, na visão dele, só aumentam o sofrimento dos pobres dessas nações.
Indagado sobre sua saúde, João Paulo II, de 77 anos, brincou: ‘‘Não é a mesma de 1979, mas procuro manter-me em dia sobre meu estado de saúde diariamente leio os jornais para saber como estou’’.

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